Obama na Ásia: À procura das novas regras do jogo com um líder que prometeu mudança

13.11.2009 - 08:36 Por Francisca Gorjão Henriques
A primeira paragem do Presidente Barack Obama será em Tóquio, o tradicional aliado militar dos EUA, que, com o novo Governo do Partido Democrata do Japão, está a virar-se para uma aliança com a China e outros vizinhos.
Tal como Obama, o novo primeiro-ministro, Yukio Hatoyama, foi eleito com a promessa de mudança. E esta passa pela presença americana no país, que poucas vezes foi tão questionada.
Obama fará aqui o seu discurso sobre o que deve ser a relação dos EUA com a Ásia. Mas não escapará a assuntos mais espinhosos, como a questão da transferência da base militar americana da ilha de Okinawa. O Pentágono, que tem no país 47 mil soldados, quer construir ali uma nova base marítima, e foi isso que ficou acordado em 2006; Hatoyama, que defende uma relação de igual para igual com Washington, prefere a sua construção fora da ilha, "para não ferir as susceptibilidades da população local" - 100 mil morreram durante a II Guerra Mundial e a presença americana ali não é pacífica. O tema tem levado milhares de japoneses à rua em sinal de protesto contra a base.
Na quarta-feira, o jornal japonês "Mainichi" noticiou que os dois líderes vão anunciar uma revisão da aliança entre os seus países. Os analistas têm referido que, com Hatoyama, Tóquio não será tão rápido a responder positivamente aos pedidos da Casa Branca como têm sido os governos dos liberais-democratas, que estiveram mais de meio século a ditar as regras. O "New York Times" escrevia mesmo que as relações entre os dois países estão ao nível mais baixo desde as guerras comerciais da década de 90.
Jeffrey Bader, director das questões asiáticas do Conselho Nacional de Segurança, referiu numa conferência na Brookings Institution que Washington procura uma "presença militar mais leve", mas que "não está em causa a redução" das forças no Japão. Será feito um esforço para que essa presença "seja mais aceitável para as populações para as quais a sua presença contribui de forma tão importante".
Outros conflitos
Os actuais conflitos não se resumem a Okinawa. O Governo nipónico quer pôr fim aos oito anos de uma missão no Índico que dá apoio no reabastecimento de combustível às tropas americanas que combatem no Afeganistão. A decisão levou a uma invulgar disputa pública entre o embaixador nipónico nos EUA, Ichiro Fujisaki, e o Pentágono.
Mas com o anúncio, na terça-feira, de um donativo de cinco mil milhões de dólares para aquele país, Tóquio poderá ter amenizado o ambiente. Washington respondeu com um tom positivo: "O Presidente... está desejoso para rever a nossa forte aliança com o Japão e discutir a nossa parceria no Afeganistão, Paquistão e questões bilaterais críticas", lê-se num comunicado da Casa Branca.
Também poderá ser tema o bloco que Hatoyama está a crer criar para uma cooperação comercial na região, que a longo prazo poderá vir a transformar-se numa Comunidade da Ásia Oriental. Para já é um projecto optimista, dadas as discrepâncias económicas, políticas e populacionais entre os estados envolvidos (são grandes as diferenças, por exemplo, entre a Tailândia e a Coreia do Sul). Mas revela a intenção de reorientar as prioridades para uma aproximação aos países vizinhos, numa altura em que a China ultrapassou já os EUA como maior parceiro comercial do Japão.
"A visita de Obama a Tóquio, e a sua recepção pelo público japonês, serão um indicador de que os ventos políticos no Japão estão, ou não, direccionados para um avanço na base de um processo de realinhamento", comentou ao Los Angeles Times Weston Konishi, da Mansfield Foundation em Washington.
Ainda assim, a presença de Obama será bem vista pelo Governo nipónico, que não gostou que o seu país tivesse estado ausente da primeira ronda asiática do antigo Presidente democrata Bill Clinton. A visita deixa automaticamente a mensagem que Tóquio continua a ser um aliado fundamental na região.


