Obama admite que tentativa de ataque poderia ter sido evitada

05.01.2010 - 23:31 Por Ana Fonseca Pereira
Barack Obama admitiu que os serviços de informação norte-americanos tinham dados suficientes para impedir que o nigeriano Farouk Abdul Muttallab tivesse embarcado num avião com destino a Detroit com explosivos escondidos na roupa, mas foram incapazes de interpretar as informações.Prometendo agir “com a maior urgência” para corrigir as falhas, o Presidente revelou que foram acrescentados novos nomes às listas de suspeitos de ligações a grupos terroristas e de pessoas proibidas de viajar para os Estados Unidos.
O ataque frustrado dominou o primeiro dia de trabalho de Obama após as férias de Natal (como tinha já dominado as suas férias no Havai), forçando-o a desviar atenções das prioridades domésticas que definira para o início do novo ano: a criação de emprego e a aprovação final da reforma da saúde.
O Presidente esteve reunido, durante várias horas, com os chefes das secretas e os seus principais conselheiros de segurança e, no final, deu novos pormenores sobre o que terá falhado no sistema de segurança nacional: os serviços de informação sabiam que o nigeriano, de 23 anos, tinha viajado para o Iémen e sabiam também que o braço da Al-Qaeda no país planeava ataques em solo americano. “Não se tratou de uma falha a reunir informação, mas de compreensão” dos dados disponíveis, explicou.
Alguns jornais admitiam que Obama poderia exigir a demissão de alguns dos envolvidos. Ao invés, optou por sublinhar que todas as agências envolvidas “assumiram a sua parte de responsabilidades”. Garantiu ainda que as investigações “vão estar concluídas ainda esta semana” e as reformas exigidas “serão adoptadas imediatamente”. Algumas entraram já em vigor, como as revistas obrigatórias para os passageiros oriundos de uma lista de 14 países ou a adopção de novos meios de detecção de explosivos.
Obama adiantou ainda que as investigações iniciais permitiram concluir que o sistema de vigilância de pessoas suspeitas funciona, “mas precisa de ser reforçado”. Confirmou, por isso, a informação que tinha já sido adiantada pela imprensa, segundo a qual dezenas de novos nomes foram acrescentados à lista de pessoas proibidas de viajar para os EUA. Muttallab não integrava este grupo, estando apenas identificado numa lista mais abrangente de pessoas suspeitas de ligações a grupos terroristas, e que foi também já revista. “A margem para o erro é pequena” quando se enfrenta um inimigo como a Al-Qaeda, lembrou o Presidente, sublinhando que depois deste incidente “as agências têm de fazer melhor e vão fazer melhor”.
Críticas republicanas
Promessas que não deverão ser suficientes para aplacar as críticas. O "USA Today" escreveu que a tentativa para derrubar o avião da Northwest Airlines reacendeu o debate sobre a estratégia antiterrorista da actual Administração. A oposição republicana, sob a batuta do ex-vice-presidente Dick Cheney, lamenta que Obama veja o terrorismo “como um problema de segurança e um desafio diplomático e não como uma guerra”. E o comentador conservador Charles Krauthammer acusou mesmo o Presidente de “desde o início ter desvalorizado incansavelmente a natureza da ameaça” que o país enfrenta.
Os apologistas da “guerra ao terrorismo” – expressão criada pela Administração Bush e que Obama deu ordens para não voltar a ser usada – argumentam que este erro de cálculo é visível na decisão de entregar Farouk Abdul Muttallab à justiça federal, ficando abrangido pelas garantias legais que, dizem, deveriam estar barradas aos “combatentes inimigos”.
Numa alusão a estas críticas, Obama disse que se há consequência que o ataque frustrado não terá é a de pôr em causa o encerramento de Guantánamo. Garantia deixada depois de o porta-voz da Casa Branca ter anunciado que será suspenso, até nova ordem, o repatriamento de iemenitas ainda detidos no presídio militar em Cuba. Os iemenitas são metade dos 200 detidos que ainda ali estão presos, mas o seu regresso ao país é polémico, tanto mais que se sabe que alguns dos já libertados engrossam as fileiras da Al-Qaeda na Península Arábica.
No Iémen, foi entretanto reaberta a embaixada americana, depois das “bem-sucedidas operações de contraterrorismo” conduzidas segunda-feira pelas forças de segurança. A representação sublinha, ainda assim, que “continua elevado o risco de atentados contra interesses americanos no país”.


