O xiita laico Allawi já é vencedor no Iraque, mas o derrotado não o reconhece

26.03.2010 - 21:09 Por Sofia Lorena
A conferência de imprensa começou com um apelo do enviado da ONU: as eleições foram “credíveis” e os candidatos devem “aceitar os resultados”. Seguiu-se o anúncio dos resultados e de imediato o candidato derrotado, o primeiro-ministro Nouri al-Maliki, veio dizer que estes não são “definitivos”, pelo que não aceita a derrota.
As eleições de 7 de Março eram a última hipótese que os árabes sunitas tinham para regressar ao processo político antes da retirada dos Estados Unidos. Aproveitaram-na e escolheram votar na lista interétnica e inter-religiosa de Iyad Allawi, xiita como Maliki, mas nacionalista e mais laico do que o chefe do Governo escolhido depois da votação de 2005, boicotado pelos sunitas.
Maliki era o grande favorito, Allawi, a escolha (não pública) dos Estados Unidos, e o grande rival de Maliki. Esperava-se que tivesse um resultado suficientemente forte para incomodar a formação de uma coligação, mas poucos previam que pudesse vencer. Conseguiu mais dois deputados do que a lista de Maliki, que elegeu 89.
Naturalmente, a reacção do vencedor foi bem diferente do que a do derrotado: Allawi quis sossegar os iraquianos, garantindo-lhes que vai “trabalhar com todos os partidos” para formar governo.
Não vai ser tarefa fácil, mas quase impossível será Maliki impor a sua vontade. Nas últimas semanas, à medida que os votos de Allawi cresciam, os apoiantes de Maliki começaram a denunciar irregularidades e a exigir uma recontagem total, cenário que a Comissão Eleitoral já rejeitou. O ainda primeiro-ministro em funções chegou a afirmar que a recontagem era necessária para “impedir um regresso à violência”.
Os resultados agora conhecidos representam mudanças significativas na política iraquiana do pós-Saddam Hussein. Não só os árabes sunitas chegam em grande à Assembleia Nacional, como nela perdem poder os partidos xiitas tradicionais e os curdos.
“É extraordinário”, disse à Reuters Toby Dodge, analista da Universidade de Londres. Este resultado, sublinha, “é uma condenação pesada do partido no poder, dos insiders que dominaram a política nos últimos cinco anos”.
Em terceiro lugar, com 70 deputados, ficou a Aliança Iraquiana Unida, a coligação de xiitas religiosos que venceu por larga margem em 2005, quando Maliki ainda a integrava. E os curdos, que começaram por se aliar aos xiitas religiosos, passam de segunda para quarta força do Parlamento, com 43 eleitos.
Contagem decrescente
“Só falta ver se Allawi tem os meios para formar governo”, diz Dodge. O período crítico começa agora: mais do que das eleições, o futuro depende da capacidade de os líderes iraquianos se entenderem para a formação de um governo com brevidade. Em 2005, os cinco meses que os partidos levaram a decidir a formação do Governo depois das legislativas contribuíram para a explosão da violência confessional em que morreram centenas de milhares de pessoas. Ontem, antes do anúncio dos resultados, um duplo atentado fez 42 mortos a norte de Bagdad.
Desta vez, tudo acontece com os EUA em contagem decrescente para a retirada. A 1 de Setembro só estarão no país 50 mil militares com funções de treino e aconselhamento. Os responsáveis norte-americanos felicitaram os iraquianos pelos resultados e pediram aos candidatos para evitarem “a retórica e as acções inflamadas”.


