Os vários retratos iam sublinhando diferentes facetas de Nidal Malik Hasan: um psiquiatra perturbado, um muçulmano devoto, um americano de origem palestiniana, um major que queria sair do Exército, uma vítima da islamofobia do pós-11 de Setembro, ou um oficial que estava prestes a ser deslocado pela primeira vez para uma zona de guerra - "o seu pior pesadelo", como disse o primo, Nader.
Nidal Malik Hasan é o autor do pior ataque a tiro numa base militar nos EUA, um episódio que se junta a um quadro preocupante de aumento de suicídios e outros problemas de saúde mental no Exército, posto à prova com duas guerras sem fim à vista.
Mas quem é Nidal Malik Hasan?
Sabe-se que tem 39 anos, nasceu em Arlington, Virgínia, filho de pais de origem palestiniana. Entrou para o Exército logo após o liceu, apesar das objecções dos pais, e estudou bioquímica e psiquiatria. Antes de ser transferido para Fort Hood, em Julho deste ano, tinha trabalhado seis anos no aconselhamento psiquiátrico no centro médico de Walter Reed (Washington), que recebe militares feridos no Iraque ou Afeganistão. Terá sido esta experiência que lhe deixou o pavor de ser enviado para o terreno. "Sabíamos há cinco anos que esse era o seu pior pesadelo", disse o primo.
Uma das raras vezes em que falou sobre o que fazia, Hasan contou à sua tia, Noel, como tratava de soldados traumatizados e mutilados. Um tinha queimaduras tão graves "que a sua cara quase tinha desaparecido", contou a tia.
Hasan tinha sido promovido a major em Março, mas queria sair do Exército, onde se sentia vítima de islamofobia após os atentados de 11 de Setembro. "Algumas pessoas aguentam, outras não", comentou Noel Hasan. "Ele queria sair [do Exército] mas não o deixaram, mesmo depois de ele se oferecer para pagar" os estudos que fez no âmbito da carreira militar.
Thomas Grieger, supervisor do centro médico de Walter Reed, disse que Hasan tinha "dificuldades" que levaram a que tivesse acompanhamento extraordinário. Mas sublinhou: "Ele fez um juramento de lealdade ao Exército. Nunca ouvi nada contrário a esse julgamento."
Outro militar que trabalhou com Hasan, Terry Lee, comentou, pelo seu lado, que a oposição do major às guerras no Iraque e Afeganistão era expressada abertamente e que era motivo de frequentes discussões com outros militares.
O atirador é ainda descrito como um muçulmano devoto. Um imã na mesquita que Hasan frequentava antes de ser deslocado para o Texas contou que o psiquiatra recorreu ao serviço matrimonial da mesquita para tentar encontrar uma mulher para casar. "Ele queria uma pessoa religiosa, tinha de rezar cinco vezes por dia, tinha de ser uma boa muçulmana", lembra Faizul Khan, ouvido pela estação de televisão ABC. Mas o imã sublinha que nunca ouviu a Hasan quaisquer opiniões políticas ou palavras mais radicais.
O Exército o e FBI estavam ainda ontem a tentar perceber se Hasan tinha há seis meses despertado a atenção das autoridades por defender bombistas suicidas num site na Internet, dizendo que os suicidas eram como soldados que em actos de heroísmo davam a sua vida para salvar outras, dando como exemplo os kamikaze japoneses.
Este incidente é o último - e o mais grave - de uma série de outros ataques do género, que contribuem para um quadro cinzento do estado da saúde mental no Exército dos EUA, que está a atingir níveis recorde de suicídios e depressões, e problemas como abuso de álcool e drogas. A directora do National Institute of Military Justice, Michelle McCluer, acha que a consequência deste incidente é pôr ainda mais ênfase na saúde mental dos militares. "É difícil conseguir pessoal especializado em saúde mental no Exército, mas é importante", disse McCluer, numa conversa telefónica, notando a ironia de ter sido um psiquiatra o autor deste ataque. "Às vezes são os próprios cuidadores a serem apanhados. É um cargo muito stressante."
Uma última coincidência macabra: Hasan vivia em Killeen, que foi palco de um dos piores ataques a tiro da história dos EUA: um atirador matou 23 pessoas e deixou 20 feridos num ataque a uma cafetaria em 1991.



