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O reino do petróleo quer mudar mas sem revolução

10.03.2011 - 16:11 Por Margarida Santos Lopes

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A unidade da sociedade tribal saudita é garantida pelo Rei Abdullah A unidade da sociedade tribal saudita é garantida pelo Rei Abdullah (Foto: Hassan Ammar/AFP)
Hoje é "dia de raiva" na Arábia Saudita. Ao palácio de Abdullah chegam pedidos de uma monarquia constitucional. O povo está a perder o medo e a Casa de Saud começa a ceder.

Em 1932, quando convenceu os inquietos chefes tribais e religiosos a aceitarem a entrada do "diabo" - a rádio e o telefone -, na Arábia Saudita, o rei Abd al-Aziz não poderia imaginar que o país seria abalado por "demónios" mais subversivos: o Facebook, o Twitter, o YouTube. Através das novas redes tecnológicas, os súbditos pedem agora uma monarquia constitucional e mobilizam-se para um "dia de raiva". É hoje.

As novidades têm sido recebidas com ultraje pelos ultraconservadores fiéis à rígida doutrina islâmica firmada numa aliança, em 1744, entre o fundador do reino, Muhammad al-Saud, e o teólogo Muhammad ibn Abd al-Wahhab. Já tinha sido assim, em 1924, quando os primeiros automóveis, dois Ford modelo T, arrastados por camelos ao longo do deserto até Riad, a capital, desembarcaram na costa do Golfo. A resistência só foi vencida quando Abd al-Aziz mostrou aos ulema ou jurisconsultos que o telefone facilitava o combate aos "hereges" do Iémen e que a rádio transmitia as palavras do Corão.

Posteriormente, em 1963, um outro soberano, Faisal, enfrentou uma contestação mais vigorosa, quando a diva egípcia Umm Kulthoum se fez ouvir, pela primeira vez, na Rádio de Meca. Perante uma delegação que o foi censurar, o Rei justificou-se que Maomé, profeta do islão, também se encantara com a voz da poeta Al Khamsa. E deixou o aviso: em breve, iriam aparecer mulheres... na televisão.

Em 1965, Faisal inaugurou o primeiro canal televisivo em língua inglesa (o segundo só entraria em funcionamento em 1983). Não aprovava o cinema como forma de recreação, mas achava que a TV seria facilmente controlada pelo Governo, para preservar os valores nacionais e, tal como a rádio e o telefone, serviria para manter unido um vasto país. Tomou, por isso, precauções para não ferir susceptibilidades.

Qualquer cena de romance em filmes, séries e cartoons importados era cortada, incluindo os beijos inocentes do rato Mickey à sua amada. Isto não impediu que a inovação conduzisse o sucessor de Abd al-Aziz a um destino trágico.

Na cerimónia de abertura da estação, um dos sobrinhos de Faisal, o fanático Khalid ibn Mussaid, tomou de assalto o edifício com um grupo de simpatizantes. Atraído até ao palácio com a promessa de uma audiência com o Rei, Khalid seria morto por um polícia demasiado nervoso. Dez anos depois, um irmão de Khalid assassinaria o soberano num acto de vingança.

Faisal era considerado um reformista, tal como Abdullah, o actual Rei, que muitos vêem empenhado em abrir a sociedade e que agora enfrenta um dos períodos mais turbulentos da história do país que, graças à sua natureza dinástica, conseguiu ultrapassar, sem grandes sobressaltos, a revolução pan-árabe do egípcio Gamal Abdel Nasser e a revolução islâmica do ayatollah Khomeini, no Irão.

"Não há razões para acreditar que os sauditas estejam imunes aos protestos que assolam a região", escreveu Madawi al-Rasheed, professora de Antropologia no King"s College, em Londres, num artigo publicado na revista Foreign Policy e que intitulou Why Saudi Arabia is ripe for revolution.

A sua convicção assenta, em grande medida, nas várias petições que circulam pela Internet e têm sido enviadas a Abdullah - o Rei que recentemente criou uma universidade onde aboliu a segregação de sexos e que integrou no Governo a primeira mulher, como ministra adjunta da Educação.

O reino continua a ser o maior produtor mundial de petróleo (que constitui 80 por cento das receitas do Orçamento do Estado, 45 por cento do produto nacional bruto e 90 por cento das exportações), mas o povo mudou muito, salientou a académica saudita.

A petição de Khulood

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joaquim d'odemira

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