Um dia depois de 70 países terem apoiado a estratégia de Hamid Karzai para estender a mão aos taliban e conseguir assim a paz negociada que a guerra já mostrou não poder obter, os rebeldes responderam com armas e palavras no Afeganistão.
Um porta-voz fez saber que a liderança dos “estudantes de teologia” irá “em breve” anunciar uma decisão sobre a oferta de Karzai, uma estratégia aprovada pelos Estados Unidos (apesar de não se quererem envolver nas negociações), ONU e NATO (com 110 mil militares no terreno). “Não posso dizer uma só palavra sobre as conversações. A liderança vai em breve decidir se quer participar”, afirmou por telefone à AFP o porta-voz que se diz chamar Qari Yusuf.
A resposta com armas foi mais concreta: dois bombistas suicidas fizeram-se explodir em Lashkar Gah e logo depois um grupo de homens armados tomou um edifício comercial, resistindo todo o dia às forças de segurança com metralhadoras e lança-granadas.
Os militares afegãos venceram, como há duas semanas, num ataque do mesmo género em Cabul. Mas a vontade dos rebeldes, ao atacarem a capital da província de Helmand, não era vencer a batalha. Era, como em Cabul, provar a capacidade para atingir os centros das cidades e não permitir aos habitantes de lugar nenhum sentirem-se seguros nem por um momento.
Essa é a primeira e grande dificuldade para os esforços agora renovados de negociar a paz. Os taliban, pelo menos do seu ponto de vista, estão a vencer esta guerra. Para além disso, não parecem dispostos a abandonar reivindicações que Washington considera impensáveis: retirada das tropas e dos nomes de todos os taliban das listas de suspeitos terroristas.
Cabul oferece lugares no Governo em troca do fim da guerra, da renúncia a quaisquer laços com a Al-Qaeda e do reconhecimento da Constituição.
Também há sinais positivos. Não tanto as declarações do porta-voz, mas a notícia, da véspera, de que o enviado da ONU, Kai Eide, se reuniu com comandantes que respondem ao Conselho de Quetta, chefiado pelo mullah Omar. Eide está de saída e os EUA não comentaram estas informações, mas este terá sido o primeiro encontro com membros desta facção radical.
Tão ou mais importante, uma grande tribo pashtun (etnia da maioria afegã) afirmou-se ontem disponível para ajudar o Governo a negociar, em troca de projectos de construção na zona onde se concentra. Sofia Lorena



