Reportagem - Polícia reforçou presença na periferia da capital

O pão aumentou mesmo mas a fúria conteve-se nos subúrbios de Maputo

07.09.2010 - 09:12 Por Sofia Lorena, em Maputo

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O trânsito normal de uma segunda-feira regressou a Maputo O trânsito normal de uma segunda-feira regressou a Maputo (Foto: Manuel Roberto)
À entrada da Mafalala, subúrbio dormitório de Maputo, há muito trânsito e restos de pneus queimados da semana passada. É a grande Avenida de Angola, com um esgoto a todo o comprimento. Ao lado é a Mafalala. Lá dentro, há mais esgotos e muitas casas de pedra, tijolo, madeira e zinco. Logo à chegada, há uma esquadra com quatro polícias à porta de metralhadora na mão. Os "cinzentinhos", como em Moçambique são chamados, estão no seu lugar com mais exibição de força do que habitualmente.

Ontem foi o primeiro dia útil depois do fim dos protestos da semana passada contra o aumento de preços dos bens essenciais onde, segundo o governo, morreram 13 pessoas. Ontem foi o dia em que o pão aumentou: de cinco para seis meticais o pão, assim do tamanho de um cacete médio. Mas hoje é feriado, por isso ontem a cidade arrancou mais lenta do que o habitual, apesar de haver muito trânsito logo de manhã.

Para entrar na Mafalala, uma branca de táxi e sem convite não corre risco nenhum. De qualquer forma, e como estes não são uns tempos quaisquer, o taxista avisado decide inventar que a branca quer conhecer a casa onde nasceu e cresceu Eusébio da Silva Ferreira.

A meio de uma rua da Mafalala, um grupo de adolescentes desocupados em calções, T-shirts de alças e colares ao pescoço começa por não querer responder à pergunta. Um deles decide que não há problema nenhum e pede ao mais pequenino que indique o caminho. "Sabes onde é?"

"Tio, vamos?", pergunta Lez, que tem três anos e que nós ainda nem tínhamos visto, em cima do seu triciclo vermelho, calções vermelhos, T-shirt às riscas brancas e vermelhas, nem de propósito, despachado, sandálias nos pedais mãos no volante, sem medo. Que as ruas da Mafalala não foram feitas para carros. São de terra, às vezes lama, apesar de já não chover há que tempos, e têm valas tão altas que o objectivo só pode ser que os carros se partam ao subi-las.

"Esta é a casa de Eusébio", confirmará uma jovem bem- disposta. A casa é grande, mas velha, de madeira e zinco, tem relva à frente e um esgoto logo a seguir. Atrás um quintal. "Já foi uma casa boa. É grande, tem três ou quatro quartos. Agora está assim. Mas a culpa não é dele. Ele deu dinheiro aos irmãos, eles gastaram na bebida. Um irmão faleceu há pouco tempo. Há um sobrinho, não sei se é filho desse irmão ou do que está vivo." Às 11h da manhã não está ninguém em casa.

Na Mafalala há gente nas ruas, miúdos descalços e miúdas com bebés ao colo, embrulhados em panos. Há um minimercado Sossó, com carapau a 55 meticais no menu, e a Madrassa Zaruja Kul, há vendas de fruta e de legumes e bancas que se chamam O Peixe da Mamã, como tantas outras por Maputo.

Guebuza queimado

Magoanine é nome de bairro onde houve muita violência na quarta e na quinta-feira. Houve protestos, a polícia respondeu com balas reais e de borracha e os protestos saíram fora do controlo. É preciso passar pelo aeroporto para lá se chegar e a caminho vêem-se cartazes já esbranquiçados de Daviz Simango, o líder do MDM, a terceira força política, que nas eleições de 2009 elegeu três deputados. Mais à frente, numa grande rotunda, há um cartaz do Presidente Armando Quebuza que foi queimado nas manifestações.

A seguir há o muro que circunda a zona da pista do aeroporto. Uma parte do muro chegou a ser destruída na semana passada: os jovens queriam chegar à pista para lá incendiarem pneus, mas a polícia já refez o muro. A seguir estamos na zona da lixeira da Hulene, onde a Padaria Mudjarimano, O Melhor Pão de Hulene, não abriu. À porta de um café que vende pizza está um polícia de metralhadora na mão. Depois há lojas de nigerianos que foram vandalizadas na confusão e a escola da Paróquia de Mavalane, que não fez ponte e está cheia de miúdos.

Logo depois da placa que indica o Bairro Policial 3 de Fevereiro, há uma barraca com um slogan do Omo pintado: Você tem a liberdade de sujar. Os slogans em Moçambique são assim, todos com pontaria, e as empresas pintam as bancas dos vendedores que gostam de ter as bancas pintadas. Ao longo da estrada do Magoanine há gente a vender laranjas, bananas e couves. Vêem-se algumas hortas.

Quatro pães

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