Na Suíça, terra dos referendos, dois partidos não querem ver o seu país transformado na terra dos minaretes. O culminar de um debate - mais polémica do que debate - iniciado há mais de um ano é o referendo de hoje, onde a todos os suíços será perguntado se querem que a frase "A construção de minaretes é proibida" seja acrescentada ao Artigo 72 da Constituição.
As sondagens antecipam a vitória do "não", mas o "sim" ganhou algum terreno: em Outubro, 34 por cento dos interrogados pelo instituto Angus Reid diziam ir votar "sim", agora são 37 por cento. O "não" mantém-se nos 53 por cento e os indecisos diminuíram de 13 para dez por cento.
Mesmo que o "sim" vença, será difícil concretizar esta proibição, obviamente discriminatória. As possibilidades de recurso são muitas, do Tribunal Federal para a Discriminação, ao Tribunal de Estrasburgo, lembra Stéphane Lathion, chefe do Grupo de Investigadores do Islão na Suíça (GRIS) e director do curso Islão, Muçulmanos e Sociedade Civil.
Em causa não está a proibição de símbolos religiosos no espaço público ou a interdição de torres altas. Apenas e só a das torres das mesquitas a partir das quais os muçulmanos são tradicionalmente chamados à oração - chamamento que não se ouve fora dos muros das mesquitas suíças nem na maioria dos países europeus, incluindo Portugal.
O mais provável é então a derrota do "sim". A vitória vai medir-se de outra forma. "As reacções negativas dependem da percentagem. Mais de 40 por cento será um sucesso para os promotores. "Perdemos, mas vejam, os suíços têm medo, e nós vamos ficar vigilantes"", dirão, explicou Lathion numa entrevista ao PÚBLICO.
Ninguém duvida que em causa estão medos. E se alguém duvidasse, bastava espreitar a campanha.
Minaret Attack
A questão começou por ser local: os muçulmanos de uma pequena cidade, Langenthal, no cantão de Berna, entusiasmaram-se com a construção de um belo templo sikh e pediram para construir uma mesquita com um minarete de nove metros. A sua causa recebeu desde logo a bênção do partido UDC (evangélicos fundamentalistas). Mas foi o Partido do Povo Suíço (SVP), o grupo ultraconversador que nas eleições de 2007 chegou aos 29 por cento, que a fez nacional.
Às mãos do SVP, a campanha tornou-se ela própria no debate. O principal cartaz, proibido em várias cidades, mostra sete minaretes "mísseis" que invadem a bandeira helvética e são "guardados" por uma mulher vestida de chador, só com os olhos descobertos.
Também há um jogo de vídeo, Minaret Attack: o dia nasce atrás de cumes cobertos de neve até que, subitamente, do fundo do vale, à frente de uma igreja, surge um minarete, depois dois, três, até serem sete, mais altos do que as igrejas, mais altos do que os picos das montanhas, mais altos do que o Sol. Os muezzin (de longos bigodes) saem dos minaretes e cantam "Deus é grande, Deus é Grande".
"Fim de jogo! A Suíça está repleta de minaretes. Para que isto não aconteça, vota "sim" a 29 de Novembro"...
Hoje existem quatro minaretes na Suíça. Quatro. Nos 180 locais de culto espalhados pelo país. Dois dos minaretes, diz Andreas Tunger-Zanetti, do Centro de Investigação em Religião da Universidade de Lucerne, foram acrescentados a estruturas que não foram construídas de raiz para funcionarem como mesquita.
Os muçulmanos do país são a terceira maior comunidade religiosa, a seguir aos católicos e aos protestantes. Quatro por cento da população. É uma comunidade muito diversa, com uma forte maioria originária da Turquia e dos Balcãs, diz Lathion. "Podemos falar de um islão europeu, pessoas habituadas à separação da religião e da política e para as quais o termo laicidade não é desconhecido", explica.


