O dia em que os mancheteiros quebraram a cara. E o PÚBLICO também

05.12.2007 - 18:06 Por José Manuel Fernandes
Não sei há quantos anos o meu bom amigo Alberto Dines, 75 anos, 55 vividos como jornalista, uma das grandes referências do jornalismo brasileiro, não escreverá a manchete de um jornal. Há muito tempo que deixou a direcção do prestigioso “Jornal do Brasil” e, nos últimos anos, é sobretudo como analista de imprensa – rigoroso e duro – que, no “Observatório de Imprensa” brasileiro (o seu primo português, que também animou, não tem a mesma importância), o temos lido.
Ontem a sua crónica tinha o título que tomei de empréstimo: “O dia em que os mancheteiros quebraram a cara”. Irresistível, como só um título brasileiro pode ser. Mas sobretudo importante, já que na segunda-feira também o PÚBLICO “quebrou a cara” com a sua manchete sobre o resultado do referendo na Venezuela. O que releva do seu texto, mais do que constatarmos que o nosso erro não foi único (é triste e inútil consolação verificar que porventura o mais sólido dos títulos brasileiros, o “Estado de São Paulo”, escreveu “Referendo aumenta poderes de Chávez”), é a reflexão que lhe surge associada.
A primeira questão que Dines coloca é a da confiança dos jornalistas nas sondagens. Escreve ele: “Cientistas sociais constroem suas hipóteses e, eventualmente, doutrinas com base em levantamentos de opinião pública. Jornalistas, porém, deveriam lidar apenas com fatos, fatos acontecidos, indubitáveis, inquestionáveis.” E escreve bem, pois todos recordamos os muitos dissabores que algumas sondagens já fizeram passar, também em Portugal, a jornais (o caso mais célebre envolveu uma eleição autárquica em Lisboa e um semanário) ou a televisões (recorde-se a noite eleitoral do primeiro referendo sobre o aborto).
Ora, sabendo todos a prudência que há que ter nestas situações, o erro do PÚBLICO surge mais incompreensível para muitos dos nossos leitores.
Alguns dos que segunda-feira se pronunciaram, abertamente, no espaço de comentários que abrimos no nosso site mal divulgámos, ainda de manhã, a nota da Direcção Editorial em que se pedia desculpa aos leitores fizeram-no com base mais no que pensam sobre o jornal do que nas circunstâncias do erro. Isso explica que uns o tenham atribuído “à boa quantidade e má qualidade de jornalistas de ‘esquerda’” que nesta redacção teriam abrigo, e que desejavam a vitória do “sim”, outros a uma redacção “obrigada a produzir mal e depressa para satisfazer os interesses imediatos dos accionistas do grupo a que o jornal infelizmente pertence”. Estas presunções, desculpem os autores dos comentários, até pelos pressupostos antagónicos de que partem, não nos ajudam muito.
Já nos ajuda mais, por exemplo, o comentário de Luís Santos, no blogue “Jornalismo e Comunicação”, animado por docentes da Universidade do Minho. Para ele, para além de explicar a origem do erro e pedir desculpas, teria sido mais interessante “aproveitar a situação para, em nome da ‘permanente comunicação com os leitores‘, explicar o processo jornalístico, as variáveis em jogo, a imponderabilidade. Talvez tivesse sido interessante aproveitar a situação para explicar a falha como um risco inerente à profissão e também como um risco inerente à relação com os leitores.”
Sem pretender esgotar o tema, até porque acontece que o erro foi cometido por um dos membros da direcção com mais experiência e que estava bem a par das imponderabilidades do referendo venezuelano, há que assumir a necessidade de uma espécie de “back to the basics” que mesmo quando se é, por norma, cuidadoso, por vezes falha-se. Regressemos pois a Alberto Dines e à sua muita sabedoria (e respeitando a sua grafia brasileira): “Tudo pode surpreender – eleições, loterias, concursos de beleza, votações no Congresso, prêmio Nobel e desfiles de escolas de samba. Se os jornalistas desacostumarem os leitores deste jornalismo divinatório, poderão livrar-se da diabólica exigência de antecipar resultados de algo que ainda não aconteceu para concentrar-se na sua missão estrita – reportar o acontecido.”


