O indigitado ministro do Petróleo poderá ser chumbado

Novo Governo de Ahmadinejad é um desafio aos conservadores no Parlamento

20.08.2009 - 09:54 Por Margarida Santos Lopes

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Ahmadinejad já entregou ao Parlamento a lista dos ministros que quer ter no governo Ahmadinejad já entregou ao Parlamento a lista dos ministros que quer ter no governo (Morteza Nikoubazl/Reuters)
O Presidente Mahmoud Ahmadinejad decidiu pôr à prova a sua força no Parlamento ao apresentar, ontem, um governo em que o ministro do Petróleo não tem experiência no sector que representa a maior fonte de rendimentos do Irão. No seu primeiro mandato, em 2005, três dos nomes que propôs para o cargo foram chumbados pelos deputados.

Nomear Massoud Mir-Kazemi, até agora ministro do Comércio, é um desafio significativo, porque o instigador da revolta parlamentar, há quatro anos, foi Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, agora um dos líderes da oposição. Derrotado e humilhado por Ahmadinejad na segunda volta das presidenciais de 2005, o homem com a alcunha de Tubarão retribuiu o vexame, conspirando no Majlis para inviabilizar as escolhas do rival.

Depois de três tentativas frustradas, Ahmadinejad foi obrigado a nomear Kazem Vaziri-Hamaneh, um protegido de Rafsanjani. Mas demitiu-o em 2007, substituindo-o por Gholamhosseim Nozari, para melhor controlar o ministério que lhe permitiria "colocar as receitas do petróleo na mesa dos pobres" - promessa não cumprida.

Engenheiro industrial, antigo reitor da Universidade de Shahed e director do Centro de Estudos Estratégicos dos Guardas da Revolução, Mir-Kazemi, de 49 anos, é um desconhecido nos meios petroquímicos.

A sua designação para substituir Nozari surpreendeu, ainda que fosse previsível uma substituição, pois o ministro cessante enfureceu Ahmadinejad ao recusar duas directivas. Uma seria ordenar, sem autorização do Parlamento, a importação extra de 3000 milhões de dólares de petróleo refinado. Outra seria transferir o vasto fundo de pensões da National Iranian Oil Company (NIOC) para o falido sistema de segurança social.

O deputado conservador Parviz Sarvari, citado pela agência IRNA, deixou um recado ao Presidente, antes da lista começar ser votada, no dia 23: "Se os ministros não tiverem experiência e conhecimento, e forem incapazes de cumprir os seus deveres, o Majlis decidirá contra."

Compreende-se a inquietação: a república islâmica é o segundo maior produtor de petróleo da OPEP, com 3,79 milhões barris/dia extraídos em Julho - mais do que a sua quota de 3,34 milhões, segundo a Bloomberg. O país tem capacidade (e precisa) de elevar a produção diária até 4,1 milhões, mas esse reforço é impossível com as sanções internacionais, que limitam investimentos estrangeiros.

A cartada feminina

Surpreendente também foi o anúncio de Ahmadinejad de que vai incluir três mulheres no Governo - uma estreia em duas décadas de revolução islâmica. Comentando os dois nomes confirmados, Fatemeh Ajorloo, no Ministério dos Assuntos Sociais, e Marzied Vahid Dastjerdi, no da Saúde, o colunista Jeff Jacoby, do "Boston Globe", notou: "São tão hardcore como os homens no poder".

Também Massoumeh Torfeh, investigadora iraniana na School of Oriental and African Studies (SOAS), em Londres, lembra que Ajorloo (fundadora da milícia Irmãs Basij) e Dastjerdi são defensoras de "alterações draconianas nas leis de família", para diminuir os direitos das mulheres no divórcio e na custódia dos filhos.

Um ponto em comum entre as escolhas de Ahmadinejad para postos-chave é terem laços com os Guardas da Revolução - sinal da influência crescente deste grupo paramilitar, ao qual o Presidente deve a sua contestada reeleição. Uma das figuras centrais será Mostafa Mohammad-Najjar, antigo executivo dos Pasdaran, que sai do Ministério da Defesa para o do Interior - responsável pela repressão dos dissidentes.

Indicador aparente de que a política externa deverá manter-se inalterável foi a decisão de deixar nos Negócios Estrangeiros Manouchehr Mottaki, tão irredutível como Ahmadinejad no dossier nuclear.

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