Por volta das 09h30 locais, a central nuclear de Natanz recomeçou hoje o processo de enriquecer urânio a 20 por cento, na presença de inspectores da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA). Esta vigilância não tranquilizou, porém, os Estados Unidos, que defendem a imposição de novas sanções “dentro de semanas – não meses”.
Em conversações com responsáveis da França, Itália e Turquia, o secretário norte-americano da Defesa, Robert Gates, alertou para a “necessidade urgente” de avançar para mais sanções – a quarta série desde 2006 – “o mais depressa possível”, disse ontem o porta-voz do Pentágono Geoff Morrell, citado pela agência Reuters.
As autoridades iranianas insistem em que o seu programa nuclear se destina a produzir energia eléctrica, e alegam necessitar de combustível enriquecido a 20 por cento para um reactor, em Teerão, que produz isótopos usados no tratamento de vários tipos de cancro. O fabrico de uma pequena bomba atómica exige urânio enriquecido a mais de 90 por cento.
Em Novembro de 2009, a AIEA havia proposto ao Irão que transferisse, de uma só vez, cerca de 75 por cento do seu urânio pouco enriquecido, a 3,5 por cento, para depois ser transformado em barras de combustível nuclear, na Rússia e/ou França – dos raros países que dominam esta tecnologia. O Irão respondeu com um ultimato e condições: exigiu que lhe fosse fornecido, até Janeiro de 2010, o combustível para o reactor de Teerão, e que a entrega do seu urânio se efectuasse em simultâneo (não previamente) e por fases.
Os analistas Con Coughlin e Meir Javedanfar, dos diários britânicos Telegraph e The Guardian, alertam que o recomeço do enriquecimento de urânio deve ser lido no contexto das lutas internas que ameaçam actualmente a teocracia.
Quinta-feira, dia 11, assinala-se o 31º aniversário da revolução islâmica, e teme-se mais uma batalha sangrenta entre as forças de segurança e a oposição. O Presidente Mahmoud Ahmadinejad sabe que o Irão não possui capacidade tecnológica nem recursos financeiros para expandir o programa nuclear, mas precisa de mobilizar a populaça para este “desígnio nacional”, acusando o Ocidente de querer inferiorizar o país. O objectivo principal, neste momento, é descredibilizar o “movimento verde” que já contará com o apoio dos bazaaris, prósperos comerciantes do bazar, cruciais para derrubar o último Xá Pahlavi em 1979.
Se a próxima fase for, “inevitavelmente, de punição e confronto”, como admitiu, ao Asia Times, Trita Parsi, presidente do National Iranian American Council, os EUA talvez possam contar, no Conselho de Segurança da ONU, com o voto a favor ou a abstenção da Rússia. Ainda que seja o maior fornecedor de armas de Teerão (1460 milhões de euros/ano), como notava ontem, no jornal francês Le Monde, Bruno Tertrais, da Fondation pour la Recherche Stratégique (FRS), em Paris, “a perspectiva de uma potência nuclear nas margens do mar Cáspio não deixa o Kremlin impávido – os russos estão cada vez mais inquietos com o programa nuclear iraniano.”
A China, pelo contrário, tem-se mostrado relutante em aprovar mais sanções, e pode mesmo usar o seu poder de veto no Conselho de Segurança. Nem se trata, provavelmente, de atitude de vingança por Washington vender novas armas (defensivas) a Taiwan, mas sim da determinação de Pequim em manter sólidas relações económicas com Teerão. O Financial Times revelou que, em 2008, o volume do comércio Irão-China ascendeu a 36.500 milhões de dólares, superando as trocas Irão-EU, no mesmo período (35 mil milhões). Além disso, o Irão, exportador de petróleo e gás, fornece aos chineses 11 por cento das suas necessidades energéticas.
Sem um acordo na ONU, é provável, que europeus e americanos possam encarar a possibilidade de sanções unilaterais. Mas vão ter de considerar a recomendação da oposição iraniana de que os alvos devem ser “os Guardas da Revolução e o seu império industrial e financeiro”.



