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Nota suplementar sobre a manchete do PÚBLICO de 3 de Dezembro sobre o referendo na Venezuela

05.12.2007 - 18:09 Por José Vitor Malheiros

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É evidente que os leitores têm toda a legitimidade para emitir os juízos que entenderem sobre a prática e sobre os critérios usados no PÚBLICO.
E é evidente também que neste caso o PÚBLICO errou e errou de forma clamorosa: dissemos que num referendo ganhou o “sim”, quando ganhou o “não”. Somos os primeiros a lamentá-lo e é compreensível que os leitores manifestem o seu desagrado.
Posto isto, pensamos que existe alguma vantagem para todos se os leitores compreenderem melhor as razões dos erros que cometemos e as práticas que constituem o quotidiano de um jornal.

1 – O jornal que é posto à venda nas bancas de manhã é feito no dia anterior. A hora de fecho varia de jornal para jornal e, dentro de cada jornal, varia de página para página. No caso do PÚBLICO, a “hora de fecho oficial” da última página a fechar são as 23h30 mas essa hora é frequentemente empurrada para a frente, até à meia-noite (às vezes mais), sempre que os acontecimentos o justificam.

O que significa “sempre que os acontecimentos o justificam”? Tipicamente, quando esperamos o desfecho de um dado evento, como um jogo de futebol ou o resultado de uma eleição, ou quando tentamos dar a notícia mais actualizada possível em relação a um acontecimento que se está a desenrolar e que sabemos que vai continuar a desenrolar-se durante a noite.

A questão é que existe um período de “eclipse” entre o momento em que o jornal é fechado e aquele em que ele chega às mãos dos leitores – um período de eclipse durante o qual nada do que acontece pode já ser incluído na edição, mesmo que o jornalista continue a seguir o acontecimento em questão.

2 – A fórmula consagrada nos casos em que temos de escrever uma notícia sobre um acontecimento que se está ainda a desenrolar é “À hora de fecho desta edição...”. “À hora de fecho desta edição o número de desaparecidos cifrava-se em...”, “À hora de fecho desta edição ainda não se conhecem os resultados definitivos...”, etc.

É uma fórmula desagradável para o jornalista, que quer dar aos seus leitores a melhor informação possível, ainda que seja a melhor escolha em muitos casos. É desagradável porque o jornalista do diário sabe que a sua informação estará desactualizada na manhã seguinte e que terá sido ultrapassada pelos noticiários da rádio, da televisão e da Internet – que já saberão o número exacto de desaparecidos ou de votos.

3 – Existem muitos casos em que é possível antever o desfecho de um acontecimento, digno de notícia, mesmo que esta apenas tenha lugar depois da hora de fecho.

Ao contrário do que muitos comentários de leitores poderiam fazer pensar, esta situação é frequente e absolutamente correcta. Um jornalista cujo jornal fecha às onze da noite tentará obter, por exemplo, o nome do premiado que irá receber o seu prémio à meia-noite e o jornalista escreverá às sete da tarde uma notícia dizendo “Foi ontem atribuído o prémio X ao escritor Y”. Entende-se na profissão que fazer esta notícia é técnica e eticamente aceitável. Por outro lado, seria eticamente inaceitável, por hipótese, ficcionar uma reportagem que descrevesse a cerimónia de entrega do dito prémio. Para além da honestidade, a prudência também o aconselha – já que pode sempre acontecer que um incidente impeça a entrega física do prémio.

Se usarmos a expressão “atribuição” pode correr-se o risco de escrever a dita notícia porque quando o jornalista tem dela conhecimento ela já foi de facto decidida. Já “aconteceu”, de alguma forma, ainda que não tenha sido ainda anunciada.

4 – Existem na imprensa inúmeros acontecimentos que são noticiados como factos com base em previsões e, curiosamente, (e isto aproxima-nos do caso da nossa manchete) as eleições fazem parte deste universo. É desta forma que todas as televisões do mundo (da parte do mundo onde há eleições) anunciam à hora do fecho das urnas o vencedor das eleições. Num momento, repare-se, onde ainda não foi contado um único voto e onde toda a gente sabe que ainda não foi contado um único voto. Como se faz isso? Com base em sondagens à boca das urnas, cuja técnica é hoje bem dominada e muito rigorosa. E isso é feito sem que haja qualquer indignação por parte de ninguém. Trata-se de usar, de forma transparente, uma técnica fiável de previsão de resultados.

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