Quase dois meses depois das legislativas, Benjamin Netanyahu tomou hoje posse como novo primeiro-ministro de Israel. O seu governo é o maior da história do país e também um dos que mais preocupa os seus aliados ocidentais. Antes de tomar posse, o líder do Likud disse acreditar que será possível chegar a um acordo de paz “definitivo”, mas não se comprometeu com a criação de um Estado palestiniano.
As cedências feitas por Netanyahu aos parceiros de coligação, a fim de garantir uma maioria no Knesset, transformaram o 32º Executivo israelita numa estrutura pesada, que conta com 30 ministros e oito vice-ministros, muitos deles sem pasta atribuída. Quase metade foram nomeados pelo Likud (direita), mas o partido de Netanyahu dividiu os principais ministérios com os trabalhistas de Ehud Barak (reconduzido na Defesa) e os ultranacionalistas de Yisrael Beiteinu, cujo polémico líder, Avigdor Lieberman, chefiará a diplomacia.
Internamente, são muitos os que duvidam da capacidade de gestão do heterogéneo governo, cuja inédita dimensão obrigou mesmo a colocar mais uma mesa na sala do Conselho de Ministros. Tzipi Livni, a líder dos centristas do Kadima, agora na oposição, acusou Netanyahu de ter criado “um governo inchado, cheio de ministros de coisa nenhuma”.
Mas a desconfiança é ainda maior a nível internacional, face à recusa de Netanyahu (e dos seus aliados de direita) em aceitar o princípio da troca de terras pela paz, previsto pelos acordos existentes e por todas as iniciativas de paz.
No discurso de hoje perante o Knesset, Netanyahu assegurou, no entanto, que “será possível chegar à paz” se a liderança palestiniana a “quiser verdadeiramente”, e se fizer a sua parte na luta contra o terrorismo. Para tal, propõe que as negociações avancem por “três vias paralelas: economia, segurança e diplomacia”.
Sem nunca se referir à criação de um Estado autónomo — principal reivindicação da Autoridade Palestiniana —, disse que, no quadro de um “acordo permanente, os palestinianos terão a autoridade necessária para se governar a si próprios, com excepção dos que ameaçam a segurança e a existência de Israel”.
Contudo, sublinhou a Reuters, qualquer proposta que não inclua a solução dos dois Estados (israelita e palestinianos) poderá colocar Telavive em rota de colisão com os Estados Unidos e aumentar as tensões com os europeus.
A presidência checa da União Europeia confessou não estar contente “com algumas iniciativas do Governo israelita” — como a construção de novos colonatos em redor de Jerusalém ou o bloqueio a Gaza — e considerou improvável a realização da cimeira UE-Israel até ao final do semestre.
O jornal Ha’aretz revelou que Barack Obama está a analisar um documento elaborado por conhecidos políticos americanos aconselhando-o a promover um acordo de paz que preveja a retirada israelita dos territórios ocupados em 1967 (com excepção dos grandes colonatos da Cisjordânia), a instituição de Jerusalém como capital dos dois Estados e a participação israelita na reintegração dos refugiados palestinianos.
Mas os analistas acreditam que o Governo de Netanyahu conseguirá evitar o isolamento se aceitar, ainda que de forma gradual, discussões com os palestinianos que incluam cedências de território e transferência de poderes. Por outro lado, o novo primeiro-ministro pretende deixar claro aos aliados que será ele, e não Lieberman, a tomar as grandes decisões da diplomacia israelita.
Contudo, a Autoridade Palestiniana entende que as primeiras declarações de Netanyahu “não constituem um começo encorajador”. Abu Roudaina, porta-voz do presidente Abbas, espera, por isso, que a Administração Obama “pressione o Governo israelita para que este se comprometa com os fundamentos do processo de paz”.
Notícia corrigida às 12h50


