Um enorme "Non" (não) preenche hoje as capas dos principais matutinos franceses, reflectindo o "sismo" e o "choque" que a rejeição do Tratado Constitucional Europeu no referendo de ontem provocaram no país.
"Não! O sismo", titula o jornal financeiro "La Tribune", que vê no voto em massa dos eleitores franceses "uma estalada para Jacques Chirac" e a provável demissão do primeiro-ministro, Jean-Pierre Raffarin.
Para o "Le Parisien", "55 por cento para o 'não': é enorme", considerando que o resultado histórico para a república francesa representa uma desautorização "da quase totalidade dos dirigentes, começando por Jacques Chirac". "Que sismo!", titula ainda o jornal na sua primeira página.
O diário económico "Les Echos" constata "o choque" provocado pelo referendo e vê o Presidente Jacques Chirac "mais enfraquecido do que nunca".
O "Libération", diário de orientação editorial de esquerda, afirma que ontem foi "O dia mais não". Num editorial intitulado "Obra-prima masoquista", o director Serge July atribui o voto contra a ratificação da Constituição europeia aos "gritos de dor, de medo, de angústia e de fúria que o eleitorado de esquerda colocou nas urnas (...)".
No entanto, não deixa de responsabilizar, "para além dos habituais soberanistas, uma classe política educada por avestruzes", que inclui "um Presidente em exercício e cínicos em aço temperado entre os quais se inclui um antigo primeiro-ministro socialista [Laurent Fabius]".
Mais optimista, o diário comunista "L'Humanité" titula "55%: o povo diz 'Não' à Europa liberal", vendo neste resultado "o caminho doravante aberto para reconstruir com os outros povos europeus um novo tratado".
Já no "Le Figaro" (conservador), o editorialista Alexis Brézet avalia "o custo do não" e as suas consequências nefastas para a direita francesa, nomeadamente para o Presidente Chirac, cuja recandidatura ao cargo "parece mais incerta que nunca".
Brézet prevê uma guerra na direita entre Nicolas Sarkozy, o presidente da União para um Movimento Popular (UMP), o partido da maioria parlamentar, e o ministro do Interior, Dominique de Villepin, dois potenciais sucessores de Chirac.
"O paradoxo seria que, no dia seguinte a um escrutínio - perdido, é verdade, mas onde soube preservar a sua unidade e conservar a confiança do seu eleitorado - a maioria estrague com querelas a extraordinária vantagem que tem face a um PS afastado da sua base e mais dividido que nunca", estima. "Para os seus eleitores, seria pagar duas vezes o preço do não", escreve Brézet.


