Músicos unem-se contra o uso das suas canções para torturar em Guantánamo

23.10.2009 - 10:46 Por Adelino Gomes, Joe Heim/Washington Post
Terá o tema da Rua Sésamo sido mesmo usado para torturar prisioneiros mantidos em Guantánamo e noutros campos de detenção? E American Pie de Don McLean? E o jingle Meow Mix? E Born in the USA de Bruce Sprinsteen?
Uma coligação de conhecidos artistas - incluindo membros dos Pearl Jam, R.E.M. e dos Roots - pediram ontem à administração que divulge os nomes de todas as canções que os detidos foram obrigados a ouvir em volume ensurdecedor durante horas a fio, mesmo durante dias, sem paragens, para tentar coagi-los a colaborar ou como método de punição.
Dezenas de músicos apoiam um processo movido ao abrigo da Lei da Liberdade de Informação e apoiado pelo Arquivo de Segurança Nacional, um instituto de investigação baseado em Washington, com o objectivo de conseguir a desclassificação de todos os registos relacionados com o uso da música em práticas de interrogatório. Os artistas também lançaram um protesto formal pelo uso da música em actos de tortura.
"Penso que todos os músicos devi-am estar envolvidos", diz Rosanne Cash. "Parece-me óbvio. A música nunca devia ser usada como tortura." A cantora e compositora (e filha de Johnny Cash) afirma que reagiu com "absoluta repugnância" quando ouviu falar desta prática. "É intolerável.Chega a ser difícil pensar nisso."
Outros músicos, incluindo Trent Reznor, dos Nine Inch Nails, e Tom Morello, ex-membro dos Rage Against the Machine, também se mostraram indignados. "O facto de música que eu ajudei a criar ter sido usada em cri-mes contra a humanidade enoja-me", disse Morello. "Precisamos de pôr fim à tortura e fechar Guantánamo já."
O anúncio dos músicos foi coordenado com o apelo dos veteranos e dos generais do Exército na reforma para encerrar a prisão de Cuba. Faz parte de um novo esforço para pressionar o Presidente Barack Obama a cumprir a promessa de fechar o campo no primeiro ano de mandato. Na rádio e na televisão correm anúncios da Campanha Nacional para Encerrar Guantánamo, liderada por Tom Andrews, ex-congressista do Maine.
Um porta-voz da Casa Branca disse que a música já não é usada como instrumento de tortura, uma de muitas mudanças na política de interrogatórios ordenada por Obama menos de 48 horas depois de tomar posse. O Presidente também mandou formar um grupo que reúne várias agências destinado a avaliar as técnicas usadas durante os interrogatórios, mas não chegou a começar a trabalhar.
Obama "baniu o uso de "técnicas de interrogatório avançadas"", proibiu a tortura e decidiu que as Convenções de Genebra têm de ser cumpridas, recorda a Casa Branca.
Não depende da qualidade
"A um determinado volume, o som cria uma sobrecarga sensorial e pode [levar a uma] regressão ao comportamento infantil", diz Suzane G. Cusick, professora de Música da Universidade de Nova Iorque que estudou e escreveu extensamente sobre o uso da música como tortura nas guerras actuais. "A sua eficácia depende da constância do som, não da qualidade da música." "A partir de um certo volume, o som simplesmente impede a pessoa de pensar."
Activistas dos direitos humanos esperam que estas acções dos músicos chamem a atenção para a prática, assegurando que não volta a ser usada. "À luz dos padrões generalizados do uso da música como tortura ao longo dos últimos sete anos, das dificuldades no acesso aos actuais detidos e do fracasso dos Estados Unidos em proibi-lo explicitamente, o pedido dos músicos é crucial para se aprender sobre o passado, o presente e até o futuro do uso da música como técnica de tortura nos EUA", afirma Jayne Huckerby, director de investigação no Centro para os Direitos Humanos e a Justiça Global na Faculdade de Direito da Universidade de Nova Iorque.
O uso prolongado de música para controlar ou coagir prisioneiros, nota Huckerby, é uma violação das Convenções da ONU contra a Tortura, assinadas pelos EUA, e é tanto tortura como tratamento desumano, cruel e degradante.


