Helmut Kohl, George W. H. Bush, Mikhail Gorbatchov, François Mitterrand e Margaret Thatcher. Que papel tiveram há 20 e nos acontecimentos que abriram caminho à queda do Muro?
Helmut Kohl - O bom gigante
No dia 9 Novembro de 1989, Helmut Kohl estava em Varsóvia. Queria começar da melhor maneira as relações com a nova Polónia que emergira da transição democrática. Na véspera, falando ao Parlamento de Bona, o homem que ficaria na história como o "chanceler da unificação", avisara: " Os nossos compatriotas que ocupam pacificamente as ruas de Berlim, Leipzig ou Dresden, manifestando-se pela liberdade (...), estão a escrever um novo capítulo da história da nossa pátria. (...) A causa da liberdade tem o tempo do seu lado." Poucas horas depois, um telefonema fê-lo interromper abruptamente a visita e regressar a Berlim. Para falar aos milhares de alemães, de Leste e de Oeste, que celebraram a abertura do Muro. Alguns dias depois, dizia aos jornalistas em Bona: "A essência da questão alemã é a liberdade."
Helmut Kohl não falhou o seu encontro com a História. Foi o primeiro a perceber que a História abria uma oportunidade rara de pôr fim em paz à divisão da Alemanha e à divisão da Europa. Dez meses depois, a Alemanha era de novo um só país. Dentro da NATO e da Comunidade Europeia. Em paz com todos os seus vizinhos. "Nós, alemães, não temos muitas razões para nos orgulhar da nossa História. Temos todas as razões para nos orgulhar da reunificação alemã."
George W. H. Bush - O Presidente indispensável
Fora durante oito anos o "vice" do Presidente que chamou à União Soviética o Império do Mal. Tomara posse em Janeiro de 1989 sem saber que iria liderar os acontecimentos que puseram fim à Guerra Fria. Começou por hesitar na melhor resposta à ofensiva lançada pelo líder soviético para "descongelar" o mundo. A sua Administração percebia a importância das transformações internas que Gorbatchov estava a fazer e queria apoiá-las. Não tinha as mesmas certezas perante a sua nova política externa. Em Junho, Bush decidiu ver com os seus próprios olhos. Visitou oficialmente a Polónia e a Hungria. Percebeu a dimensão dos acontecimentos. Deu luz verde para uma mudança radical de estratégia. Estava preparado para agir quando surgiu a oportunidade. Helmut Kohl encontrou nele o aliado que lhe permitiu reunificar a Alemanha. Presidiu ao impensável colapso pacífico da União Soviética. Garantiu a sobrevivência da NATO.
Com 85 anos, esteve agora em Berlim para exprimir a sua mais profunda convicção: "Os acontecimentos de 1989 não foram iniciados em Bona, Moscovo ou Washington. Mas nos corações e nos espíritos de gente privada há demasiado tempo dos direitos que Deus lhes tinham dado."
Mikhail Gorbatchov - O herói involuntário
"Ninguém chega ao poder na União Soviética contra o sistema", disse Alexandre Iakovlev, que foi o seu braço-direito. Gorbatchov subiu ao poder supremo em Março de 1985 como um homem do sistema. Não era um dissidente nem um revolucionário. Desmantelar a URSS era a última coisa que pensava fazer. Reformá-la sim. Acreditou que podia tornar o regime mais eficaz e mais humano politicamente. "A perestroika foi uma espécie de realização tardia da Primavera de Praga", escreve o Economist. Só que no coração do império. Desencadeando ondas de choque que mudaram o mundo. Pode ter sido contra a sua vontade que o Muro caiu. Nada disso lhe retira o mérito de ter conseguido compreender o sentido da História e de lhe ter facilitado o caminho. Libertou a Europa de Leste para que ela própria iniciasse a sua libertação. Estendeu a mão à América para desmilitarizar a Europa. "É tempo de remeter para os arquivos os postulados da Guerra Fria."
Numa noite cálida de Junho de 1989, à beira do Reno, o chanceler alemão disse-lhe: "Olhe para o rio. Simboliza a História (...). Pode erguer uma barragem, mas a água vai encontrar outra forma de chegar ao mar. É o mesmo com a unidade alemã e a unidade europeia." Ficou em silêncio. Despediram-se com um abraço.


