Muro de Berlim: Gorbatchov volta a fazer cair a cadeia dos dominós

09.11.2009 - 09:00 Por Jorge Almeida Fernandes
Hoje, ao fim do dia em Berlim, uma cadeia de dominós gigantes desmoronar-se-á perante dezenas de milhares de berlinenses, líderes mundiais e televisões de toda a parte.
O empurrão no primeiro dominó será dado por Mikhail Gorbatchov, talvez por Lech Walesa, ou por ambos. O desmoronamento da cadeia representa a queda do Muro, a 9 de Novembro de 1989, a reunificação alemã e, enfim, a "reunificação europeia".
Hoje, ao fim do dia em Berlim, uma cadeia de dominós gigantes desmoronar-se-á perante dezenas de milhares de berlinenses, líderes mundiais e televisões de toda a parte. O empurrão no primeiro dominó será dado por Mikhail Gorbatchov, talvez por Lech Walesa, ou por ambos. O desmoronamento da cadeia representa a queda do Muro, a 9 de Novembro de 1989, a reunificação alemã e, enfim, a "reunificação europeia".
Subliminarmente, vai mais longe: evoca a cadeia que, começando na greve polaca de Gdansk (1980) e na perestroika de Gorbatchov na URSS (1985), culminará no fim dos regimes comunistas em Varsóvia, Budapeste, Berlim-Leste, Praga, Sófia e Bucareste - e pouco depois na implosão da própria URSS (1991). O programa oficial prevê que seja Gorbi a dar o "piparote", mas Walesa reclama para a Polónia essa honra. Ambos têm razão.
Estarão presentes na "Festa da Liberdade" os dirigentes dos 27 países da União Europeia. Terão natural destaque a chanceler alemã, Angela Merkel, e os líderes dos quatro países que administraram a Berlim do pós-guerra: o russo Dmitri Medvedev, o francês Nicolas Sarkozy, o britânico Gordon Brown; Obama faz-se representar por Hillary Clinton. Durão Barroso representa a UE e José Sócrates Portugal.
Das figuras históricas, apenas estará Gorbatchov. Tanto o chanceler da reunificação, Helmut Kohl, como o antigo Presidente George W. H. Bush, ambos doentes, não comparecem. Estiveram em Berlim, com Gorbatchov, no dia 31, numa mesa-redonda que abriu as comemorações.
Fim do século XX
O ano de 1989 teve ressonância planetária. É o fim formal da Guerra Fria, embora, de facto, ela já tivesse desaparecido da Europa. Com a implosão soviética, os EUA emergem como "hiperpotência solitária".
Os países do Centro e Leste da Europa iniciam um doloroso processo de reconversão, que culminará na sua integração na União Europeia.
O primeiro efeito de 1989 é a abertura de um efémero período de ilimitadas ou cândidas expectativas. Dois livros balizam este momento. Em "O Fim da História" (1992), o americano Francis Fukuyama prevê uma marcha acelerada para a democracia e para o capitalismo, novo paradigma universal. No mesmo ano, outro americano, Samuel Huntington, publica o artigo "Clash of Civilizations?", esboço do livro de 1996, em que apresenta outro paradigma, o dos conflitos de culturas no século XXI.
No ano do bicentenário da Revolução Francesa, historiadores assinalaram que 1989 significou o fim da "temática do futuro radioso", inaugurada em 1789. "A divindade histórica treme nas suas bases", resumiu o francês François Furet.
Para a Europa, 1989 tinha ainda outro significado. Marcava o fim do "curto século XX" (Eric Hobsbawm), inciado em 1914 com a I Guerra Mundial, uma guerra civil europeia, com mais de 20 milhões de mortos, que destruiu valores, subverteu o mapa político europeu, deu origem aos fascismos, ao nazismo e à revolução comunista na Rússia. É esta era que também se encerra em 1989, ou melhor, em 1991.
Desordens globais
As novidades não demoraram. O Iraque de Saddam Hussein interpretou mal o fim das rivalidades da Guerra Fria e invadiu o Kuwait. A Guerra do Golfo, ainda antes do fim da URSS, confirmará o estatuto de hiperpotência dos Estados Unidos. Muda o equilíbrio de todo o Médio Oriente, com ex-aliados soviéticos a participarem na guerra ao lado de Bush.

