O Presidente do Zimbawe, Robert Mugabe, chamou “traidores” aos apoiantes da oposição, em comentários transmitidos repetidamente pela estação de rádio estatal, fazendo temer o regresso da violência no país, a dois dias das eleições legislativas.
As declarações do chefe de Estado, que governa o Zimbawe autocraticamente desde 1980, foram proferidas durante um comício do seu partido, o ZANU-PF, ontem em Mutoko, uma localidade situada a 140 quilómetros da capital, Harare.
“Todos aqueles que vão votar no Movimento para a Mudança Democrática [MMD] são traidores”, afirmou Mugabe.
No passado, comentários semelhantes por parte do Presidente motivaram o recurso à violência, por parte da milícia juvenil do seu partido, contra candidatos e apoiantes da oposição.
O líder do MMC, Morgan Tsvangirai, que falou hoje perante centenas de apoiantes numa aldeia a 200 quilómetros de Harare, não reagiu às acusações de Mugabe.
Arcebisbo apelou a “levantamento não-violento”
As declarações do Presidente do Zimbabwe surgiram depois do arcebisbo católico de Bulawayo, Pius Ncube, ter apelado no domingo a um “levantamento popular não-violento” se o partido no poder vencer as eleições de quinta-feira devido a fraudes.
Numa entrevista telefónica, o responsável religioso afirmou hoje que as acusações de Mugabe de traição trazem à memória as retaliações contra os eleitores suspeitos de votarem na oposição em eleições anteriores.
Em 1985, dezenas de milhar de famílias foram despejadas de suas casas durante o período mais rigoroso do inverno até que adquirissem o cartão de membro do ZANU-PF. Nesse ano, após a vitória, Mugabe afirmou perante os seus apoiantes: “Agora peguem nos vossos paus e batam nas cobras que existem entre vós”.
De acordo com os observadores internacionais, as eleições legislativas de 2000 e as presidenciais de 2002 foram marcadas por uma forte política de violência e intimidação.
“Pode estar calmo agora, mas não sabemos o que se irá passar depois destas eleições”, afirmou Pius Ncube. “Eles [ZANU-PF] podem vir a castigar as pessoas e bater-lhes – eles são muito violentos. Estamos a lidar com pessoas que obrigaram todos ao silêncio no passado”.
O arcebispo relatou também que foi seguido e que os seus telefones foram postos sob escuta.
Pedido de permanência dos observadores internacionais
Reginald Matshaba-Hove, director da Rede de Apoio Eleitoral do Zimbabwe – uma organização independente –, disse estar preocupado com as afirmações de Mugabe e pediu que os observadores estrangeiros permanecessem no país durante pelo menos uma semana depois do escrutínio, com receio de que possa haver violência.
Por seu lado, o arcebisbo Ncube disse ainda temer que a política de intimidação dos eleitores – com recurso a ameaças de suspensão de ajuda alimentar aos apoiantes da oposição – , assim como fraudes na contagem dos votos possa assegurar uma vitória do ZANU-PF.
O Zimbabwe está mergulhado num caos político e económico, desde de que o Governo encetou uma política de despejo dos proprietários brancos do país em 2000, distribuindo as suas terras pelos cidadãos negros, numa campanha marcada pela violência.
No discurso de hoje, o líder da oposição, Morgan Tsvangirai, criticou duramente as políticas de Mugabe, que segundo ele arruinaram a economia do país.
No entanto, a sua intervenção não durou muito, já que pouco depois de ter começado a falar foi interrompido pela polícia local, que o informou que o tempo pedido pelo seu partido para o comício havia terminado.
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