• Primeira esplanada Time Out do mundo abre na Avenida da Liberdade
  • Dead Combo e skates na passerelle
  • Restaurantes de topo com menus a 20 euros

Perfil

Mubarak: um faraó à beira do sarcófago

31.01.2011 - 13:20 Por Margarida Santos Lopes

  • Votar 
  •  | 
  •  18 votos 
Hosni Mubarak é presidente do Egipto há 29 anos Hosni Mubarak é presidente do Egipto há 29 anos (Tony Gentile/Reuters)
O Presidente Mubarak ainda resiste ao que o académico libanês Fawas Gerges descreveu como "o momento Berlim do mundo árabe". Mas a maré humana nas ruas do Egipto e as pressões externas para que marque eleições só lhe deixam uma de duas alternativas: abandonar o poder com uma réstia de dignidade ou na ignomínia.

"Hosni Mubarak foi falar às crianças de uma escola primária e, depois do seu discurso, ofereceu-se para um período de perguntas. Um rapazinho chamado Ramy levantou a mão e o Presidente egípcio interpelou-o: O que queres saber?

Ramy disse:

- Tenho quatro perguntas. Primeira: por que é que o senhor é Presidente há 29 anos? Segunda: por que é que nunca nomeou um vice-presidente? Terceira: por que é que os seus dois filhos, Gamal e Alaa, controlam a economia e a política do país? Quarta: por que é que o Egipto é um Estado miseravelmente pobre e o senhor não faz nada?

Nesse preciso momento, a campainha tocou e Mubarak informou as crianças que voltaria depois do intervalo. No regresso, retomou a conversa: Ok, em ponto estávamos? Ah, já sei... Na sessão de perguntas. Alguém quer perguntar alguma coisa?

Um outro rapazinho levantou a mão. Mubarak apontou para ele e pediu-lhe que se identificasse.

- Eu sou Tamer, respondeu o menino.

- E qual é a tua pergunta, Tamer?

- Eu tenho seis perguntas. Primeira: por que é que o senhor é Presidente há 29 anos? Segunda: por que é que nunca nomeou um vice-presidente?

Terceira: por que é que os seus dois filho, Gamal e Alaa, controlam a economia e política do país? Quarta: por que é que o Egipto é um Estado miseravelmente pobre e o senhor não faz nada? Quinta: por que é que a campainha tocou para intervalo 20 minutos antes do que é habitual? Sexta: o que é que o senhor fez ao Ramy?"

Esta velha anedota, sussurrada entre portas e relembrada por Issandr El Amarani no seu blogue The Arabist, exprime bem algumas das razões que levaram os egípcios a perder o medo e a reclamar, não em segredo mas nas ruas, o fim de um regime ditatorial em vigor há quase três décadas.

Foi a 14 de Outubro de 1981 que Hosni Mubarak, vice-presidente de Anwar el-Sadat (desde 1975), sucedeu ao raïs (Presidente), depois de escapar por um triz às balas que, no dia 6, mataram o seu predecessor durante um desfile militar, a que ambos assistiam, lado a lado, no Cairo. O desaparecimento do homem que pagou com a vida "a traição" do primeiro tratado de paz israelo-árabe levantou dúvidas, sobretudo entre a comunidade internacional, sobre se o Egipto ficaria à mercê da Irmandade Muçulmana - de cujas fileiras emergiu o assassino -, já que a liderança do país iria ser assumida por um homem desconhecido, apesar da sua imparável ascensão militar.

Aprender a voar
Um dos cinco filhos de um funcionário do Ministério da Justiça, Muhammad Hosni Sayyid Mubarak nasceu a 4 de Maio de 1928 em Kafr-el-Meselha, aldeia no delta do rio Nilo. Estudou, primeiro, na Academia Nacional Militar em 1949 e formou-se, depois, como piloto de caça e instrutor de voo na Academia da Força Aérea. Entre 1959 e 1961, foi para antiga União Soviética aprender a pilotar bombardeiros. Em 1966, no retorno à pátria, assumiu o comando de duas bases aéreas e, no ano seguinte, foi promovido a chefe de Estado-Maior da Força Aérea. Em 1972, já era vice-ministro da Defesa e, dois anos mais tarde, atribuíram-lhe a patente de marechal. Foi a recompensa pela participação na Guerra de Outubro ou de Yom Kippur - vista pelos árabes como "a desforra" pela humilhante derrota que Israel lhes desferiu na Guerra dos Seis Dias, de 1967, durante a qual o Egipto perdeu, em seis horas, a península do Sinai.

As credenciais de Mubarak entre os militares eram tão imaculadas que Sadat, o sucessor do pan-arabista Gamal Abdel Nasser, não hesitou em nomeá-lo seu "número dois", conferindo-lhe a responsabilidade de várias e importantes missões de política interna e externa. Com a morte do visionário que emocionou os israelitas ao visitar Jerusalém em 1977, Mubarak foi catapultado para a chefia do Estado, superando a longevidade do reinado de Muhammad Ali Paxá, o otomano cuja dinastia se manteve no poder até à revolução de 1952 que derrubou o monarquia.

Estatísticas

  • 60 leitores
  • 16 comentários

URL desta Notícia

http://publico.pt/1477918

Comentário + votado

Diz a Margarida:

"O Egipto ficaria à mercê da Irmandade Muçulmana - de cujas fileiras emergiu o assassino "...foi um ...

Abu Lixa

31.01.2011 16:45

X

Mais em Mundo (11 de 21 artigos)

Os protestos continuam apesar do recolher obrigatório Reportagem: a desobediência continua e há um parlamento popular nas ruas do Cairo