Os manifestantes voltaram às ruas de Teerão gritando “morte ao ditador!”. Regressaram também os confrontos entre a polícia e os partidários do candidato derrotado nas eleições presidenciais Mir-Hossein Moussavi, que hoje formalizou um pedido para a anulação dos resultados. Enquanto isso, o Presidente Mahmoud Ahmadinejad fez o seu discurso de vitória, negando suspeitas de fraude eleitoral.
"Apresentei hoje um pedido oficial ao Conselho dos Guardiões para o cancelamento dos resultados eleitorais", lê-se num comunicado colocado no site oficial da candidatura de Moussavi. Na mesma comunicação, o candidato moderado pede aos seus apoiantes "para continuarem os protestos de forma pacífica e legal", num claro desafio ao Líder Supremo, o "ayatollah" Ali Khamenei, que na véspera pediu a todos os candidatos que apoiem o Presidente reeleito.
À mesma hora, Ahmadinejad reunia dezenas de milhares de apoiantes numa praça de Teerão, na primeira comemoração oficial de vitória.
Durante a manhã, numa conferência de imprensa o ultraconservador voltou a negar qualquer suspeita de fraude e afirmara que a forte participação registada (84 por cento) era “uma afronta contra o regime opressor” que dirige o mundo.
Disse ainda que a questão nuclear “já pertence ao passado”, indicando que não haverá mudanças de política. E voltou a dizer que qualquer país que se atravesse a atacar o Irão “se arrependeria amargamente”, relata a agência Reuters.
Protestos intensificam-se
Partidários de Moussavi regressaram às ruas, cantando o seu nome e atirando pedras à polícia, relata a agência Reuters, mas não se sabe ainda qual o paradeiro do principal candidato da oposição, que na sexta-feira considerou os resultados eleitorais “uma farsa perigosa”.
A mulher de Moussavi, Zahra Rahnavard, nega que ele tenha sido preso ou detido em casa. “Está a seguir as consequências das eleições. Diz que está com o povo”, disse Rahnavard à Reuters. “As pessoas votaram para afastar Ahmadinejad, mas este voto tornou-se numa solidificação do regime. As pessoas estão fartas de ditadura”, disse Rahnavard, que tomou um papel activo na campanha do marido.
Ela tentou convocar um comício para hoje, na Universidade de Teerão, mas não a deixaram falar, relata a mesma agência noticiosa.
Nas ruas de Teerão, agentes da polícia em motorizadas circulam entre os manifestantes, tentando dispersar a multidão, e atiram gás lacrimogéneo, relata a agência AFP. A polícia entrou até em lojas onde se tinham refugiado alguns manifestantes – muitas casas particulares estão de porta aberta, para que lá se possam refugiar os manifestantes, conta a mesma agência notíciosa.
“A situação está controlada”, disse na televisão estatal o chefe-adjunto da polícia, Ahmed Reza Radan. A rede de telemóvel foi restabelecida esta manhã, depois de ter sido cortada no sábado.
Em Teerão e outras grandes cidades do Irão, estas manifestações, desde que foram divulgados os resultados oficiais, que dão a vitória a Ahmadinejad, são as mais importantes expressões de descontentamento contra a liderança da República Islâmica, provavelmente desde sempre. O chefe-adjunto da polícia confirmou que foram detidos 60 indivíduos “organizadores dos motins”.
A vitória inesperada de Ahmadinejad – e a ruptura que se percebe ter acontecido no regime – deixam o Ocidente expectante, numa altura em que o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, tinha convidado o Irão “a abrir o punho” e envolver-se num diálogo a sério.
A condenação verdadeiramente notória veio de França, com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Bernard Kouchner, a mostrar preocupação com a repressão “brutal” aos opositores de Ahmadinejad. “Brutalidade e um desenvolvimento militar interminável não trarão soluções”, disse Kouchner, em Paris, citado pelas agências noticiosas.
Outros admitem que situação no Irão está a tornar-se muito perigosa. “O que está a acontecer não representa boas notícias para ninguém, seja para os iranianos, seja para garantir a paz e estabilidade no mundo”, comentou Henri Guaino, um dos conselheiros mais próximos do Presidente francês, Nicolas Sarkozy.
Notícia actualizada às 15h30



