Morreu Walter Cronkite: os Estados Unidos perderam um ícone 
18.07.2009 - 12:36 Por Maria João Guimarães
Emocionou-se ao dar à América a notícia da morte de John F. Kennedy, pôs em dúvida, em horário nobre, a possibilidade de os EUA vencerem a guerra do Vietname, entusiasmou-se ao relatar em directo a chegada de Neil Armstrong à Lua. Terminava cada noticiário com a frase: “And that’s the way it is.” Walter Cronkite, o homem em quem os americanos mais confiavam, morreu ontem, aos 92 anos, na sua casa em Nova Iorque, de problemas decorrentes de uma doença cerebro-vascular, segundo o filho, Chip.
Cronkite esteve na CBS cerca de 30 anos e foi pivô entre 1962 e 1981, na era de ouro do noticiário televisivo, e é considerado o “pai fundador” do género, tanto que em sueco os pivôs são conhecidos como “kronkiters” e em holandês “cronkiters”, lembrava ontem o diário britânico "The Telegraph".
Estávamos numa altura em que as notícias eram dadas no noticiário da noite, em que o CBS Evening News liderava as audiências (chegou a ter cerca de 18 milhões de espectadores) e o pivô era quase um membro da família. Talvez por isso chamassem “Tio Walter” ao homem que relatava os acontecimentos num cenário de secretárias e telefones.
Nascido em St. Joseph, no Missouri, Cronkite estudou no Texas, onde começou a sua carreira de jornalista. Trabalhou para uma agência de notícias – para a qual cobriu a Segunda Guerra Mundial, incluindo o desembarque na Normandia a bordo de um avião B-17, e os julgamentos de Nuremberga –, antes de entrar na CBS, onde teve várias funções até chegar a pivô. E foi aí que Walter Cronkite acabou por se tornar um símbolo da neutralidade jornalística – foram muitas as votações em que foi considerado o homem em quem os americanos mais confiavam.
Mas foram as maiores excepções à neutralidade que lhe valeram os momentos mais célebres – e recordados – da sua carreira. A mais importante terá sido quando parece prestes a chorar ao anunciar a morte do Presidente John Fitzgerald Kennedy, em Novembro de 1963 (depois de ler o telex da AP, o pivô tirou os óculos, engoliu em seco, olhou para o relógio, procurando ganhar tempo, e conseguiu evitar as lágrimas).
Cronkite também saiu do seu papel de observador quando declarou, a seguir a uma viagem em reportagem ao Vietname, em 1968, que duvidava que os Estados Unidos conseguissem ganhar a guerra, e aconselhou mesmo a Administração americana de Lyndon Johnson a entrar em negociações. Este episódio terá contribuído para que o Presidente Johnson decidisse não se candidatar. “Se perdi Cronkite, perdi a América”, terá dito Johnson. Anos mais tarde, Cronkite viria a eleger a reportagem em Tet, no Vietname, como a mais importante de toda a sua vida profissional.
“Oh Boy!”
Cronkite relatou ainda na televisão o assassínio de Martin Luther King (1968), o escândalo Watergate (1972-1974), e os eventos da tomada de reféns na embaixada norte-americana em Teerão (1979-1981), que ensombrou o mandato de Jimmy Carter (1977-1981).
Era uma personalidade tão marcante que o senador Robert Kennedy chegou a tentar convencer Cronkite a concorrer a um lugar político, escrevia ontem o diário britânico The Independent.
A sua morte coincidiu com o aniversário da missão espacial Apolo 11, que pela primeira vez levou um homem à Lua. “Oh boy!”, tinha Cronkite exclamado quando comentava em directo a aterragem da Apolo 11, a 20 de Julho de 1969, antes de tirar os óculos e esfregar as mãos. “Neil Armstrong, americano de 38 anos, está na superfície da Lua”, anunciava perante a imagem da descida do astronauta. “Wow!”
As imagens da chegada de Armstrong à Lua, acompanhadas pela narração entusiástica de Cronkite, têm sido repetidas nos últimos dias, a propósito das comemorações dos 40 anos da chegada do homem à Lua.
O jornalista, grande apoiante da aventura espacial americana, estivera mesmo entre os finalistas para o programa da NASA que levaria pela primeira vez um civil ao espaço. Mas apesar de toda a gente acreditar, na altura, que viria a ser Cronkite o seleccionado, o Presidente Ronald Reagan decidiu que seria um professor o primeiro civil a fazer uma viagem espacial, conta a estação de televisão norte-americana CNN no seu site.
A voz da certeza
“A sua voz quente de barítono entrava em milhões de salas todas as noites e, numa indústria de ícones, Walter definiu o padrão segundo o qual todos os outros foram julgados”, disse ontem o Presidente norte-americano, Barack Obama, em comunicado. “Era a voz da certeza num mundo incerto.”
Em 2006, o próprio Cronkite explicava no jornal electrónico Huffington Post a sua assinatura de encerramento do noticiário, “And that’s the way it is”: “Para mim, ela representa o mais alto ideal de um jornalista – relatar os factos como os vê, sem pensar nas consequências ou na controvérsia que possam causar.”
Foi pivô até 1981 (Dan Rather sucedeu-lhe como a cara das notícias da noite na CBS) e, aos 64 anos, esperava continuar como jornalista. Mas a estação terá temido que fizesse demasiada sombra ao seu sucessor e acabou por não lhe atribuir funções de jornalista.
Cronkite manteve ainda muitos anos uma coluna de opinião em vários jornais americanos, escreveu livros, fez documentários e dedicou-se à vela. Nos últimos anos empenhou-se em campanhas contra o aquecimento global e contra a guerra no Iraque. Isto sem deixar de expressar preocupação com a crescente concentração – a seu ver, a maior ameaça à independência dos jornalistas – na paisagem mediática norte-americana.
No seu 90.º aniversário disse ao Daily News, “gosto de pensar que ainda sou perfeitamente capaz de cobrir um acontecimento”.
Notícia actualizada às 20h36
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