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Crónica

Mona Eltahawy: Eu quero banir a burqa - em toda a parte

29.08.2010 - 12:33

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 (Mona Eltahawy)
Sou muçulmana. Sou feminista e detesto o véu integral, conhecido como niqab ou burqa. Apoio a interdição deste véu - em toda a parte e não apenas na Europa - porque equipara a piedade ao desaparecimento das mulheres. Porque representa uma ideologia que diz à mulher: quanto mais próxima estás de Deus, cada vez menos Ele te deve ver.

Estou consciente de que aqueles que querem proibir a burqa na Europa são sobretudo partidos e políticos racistas, intolerantes e de extrema-direita que pouco se importam com os direitos das mulheres. Mas também fico horrorizada ao ouvir a defesa do niqab e da burqa na Europa com argumentos de feminismo e liberalismo. Um politicamente correcto bizarro atou as línguas daqueles que normalmente se unem em defesa dos direitos das mulheres mas que agora estão a sacrificar esses mesmos direitos em nome da luta contra essa direita cada vez mais poderosa.

Eu recordo a esses defensores do niqab e da burqa que há duas direitas à volta dos véus integrais e que devem resolutamente confrontar ambas se, efectivamente, se importam com as mulheres e os seus direitos.

Embora eu abomine a xenofobia da direita [política na Europa], também condeno a misoginia da direita muçulmana, cuja ideologia promove o niqab e a burqa. O véu integral não é um símbolo do islão como a direita política e a direita muçulmana alegam. O véu integral é apenas símbolo da direita muçulmana.

Eu digo aos que defendem o "direito de escolha" das mulheres a usar o véu integral que eles estão a apoiar uma ideologia que só atribui um direito às mulheres - o de cobrirem os seus rostos. Conheço bem essa ideologia, designada por salafi smo. É frequentemente associada à Arábia Saudita, onde passei a maior parte da minha adolescência e onde é visível que as mulheres são tratadas perpetuamente como crianças, proibidas de conduzir automóveis, de viajar sozinhas e até de se submeter a cirurgias simples sem a autorização de um "guardião" masculino. Seja na Arábia Saudita ou na França, esta ideologia ensina às mulheres que elas arderão no Inferno se uma ínfima parcela do seu corpo estiver exposta. Não há escolha neste condicionamento. Esta não é uma mensagem que os muçulmanos aprendam no seu livro sagrado, o Corão, e o véu que oculta o rosto nem sequer é recomendado pela maioria dos teólogos muçulmanos.

Sempre que vou de Nova Iorque, onde resido agora, para o Cairo, interrogo-me sobre o que Huda Shaarawi, a pioneira feminista egípcia, diria se visse como tantas das suas irmãs estão a desaparecer por detrás do véu que lhes esconde a face. Ao regressar de uma conferência internacional sobre mulheres na Itália, em 1923 - sim, já tínhamos feministas nessa altura no Egipto -, Shaarawi ficou famosa ao retirar o véu, numa estação de comboios do Cairo. No Egipto, podemos não ter queimado os nossos soutiens, mas alguns descreveram o gesto de Shaarawi como tendo sido muito mais incendiário para a época.

Eu usei lenço na cabeça durante nove anos.

Uma discussão que tive numa estação de metro no Cairo com uma mulher que usava burqa ajudou a selar para sempre a minha recusa em defender o véu. Vestida de negro da cabeça aos pés, a mulher perguntou-me por que não envergava eu a burqa. Apontei para o meu lenço e perguntei-lhe: "Isto não é suficiente?" "Se tu quisesses um rebuçado, escolherias aquele que está embrulhado em papel ou o que não está?" retorquiu ela. "Eu não sou um rebuçado", ripostei. "As mulheres não são rebuçados." Desde então tenho ouvido argumentos a favor da burqa em que a mulher é descrita como um anel de diamantes ou uma pedra preciosa que precisa de ser escondida para provar o seu "valor". Se não contestarmos isto, a burqa - e, subsequentemente, a ocultação da mulher - tornar-se-á o pináculo da piedade. Não permitirei que o meu feminismo e liberalismo sejam usados para defender algo que é a antítese, simultaneamente, do feminismo e do liberalismo.

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Grande Mona Eltahawy!

Enalteço o Público pela publicação deste artigo juntamente com o artigo de ...

Orgulhoso de ser "Islamófobo"

15.09.2010 15:58

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