Ministros perdem poder directo na gestão dos fundos europeus

27.03.2006 - 08:38 Por Eunice Lourenço, Lurdes Ferreira, , (PÚBLICO)
O poder que os ministros têm há mais de duas décadas na gestão dos fundos comunitários será substancialmente reduzido com o sucessor do Quadro Comunitário de Apoio (QCA), o chamado QREN: Quadro de Referência Estratégico Nacional.
Manuel Pinho é um dos ministros com mais razões de queixa por essa mudança: o Prime vai desaparecer e com ele o papel de destaque tradicionalmente dado ao ministro da Economia. Mas não é o único: também Mário Lino, das Obras Públicas, e Vieira da Silva, do Trabalho, terão menos margem de manobra com a extinção dos programas que estavam sob a sua directa e exclusiva tutela.
Outra consequência antecipada na nova arrumação operacional dos fundos comunitários será a reestruturação da máquina da Administração Pública afecta a esta área. Calcula-se que actualmente haja duas mil pessoas directa e indirectamente ligadas à gestão do QCA, um número que se prevê que seja também agora reduzido.
No QREN, o Governo reforça no seu conjunto o poder de decisão, através de uma maior centralização, mas concentra, ao mesmo tempo, de forma significativa, o número de programas em vigor.
Os 12 programas sectoriais que se distribuíam pelos ministros das pastas ficam agora concentrados em três grandes programas operacionais (PO) temáticos, como estabelece a resolução do Conselho de Ministros, publicada a 10 deste mês.
Como os programas passam a ser transversais (competitividade, qualificação e território), cada um deles envolverá vários ministros, obrigando-os a uma permanente concertação entre si, enquanto a gestão dos mesmos será entregue a gestores profissionais, segundo se afirma no texto.
Os ministros passam a fazer parte da direcção política da cada PO temático, por via de uma "comissão ministerial de coordenação, constituída pelos ministros com responsabilidades governativas mais relevantes no âmbito de cada PO e coordenada por um deles".
Quanto ao órgão de gestão para cada um dos PO, será "profissionalizado", assegurando o "exercício das competências das autoridades de gestão".
O ministro do Ambiente, Nunes Correia, não esconde as alterações. Num recente encontro com os deputados, disse-lhes que "há ministros que se podem considerar afastados do processo", que o Governo quer "fugir da situação de ter um programa operacional para casa ministério" e que quer "ter grandes eixos e vários ministros a trabalhar esses eixos".
As novas regras obrigarão, por exemplo, a que dois ministros com relações distantes depois do Plano Tecnológico, Manuel Pinho e Mariano Gago, se sentem à mesma mesa e se entendam. O PO para a Competitividade vai ter na sua direcção política quatro ministros, pelo menos: Economia, Finanças (Administração Pública), Justiça e Ciência.
Menos clara por agora é a arrumação a fazer em termos de recursos humanos, cujo número cresceu ao longo dos anos. Os números disponíveis indicam que um milhar de trabalhadores da administração pública está directamente ligado à gestão do QCA, através das unidades de gestão, enquanto outro tanto trabalha nos serviços associados e de apoio.
"O diabo são os pormenores"
Na recente audição na comissão parlamentar de Assuntos Económicos dedicada ao QREN, Nunes Correia assumiu a centralização dos fundos enquanto a oposição a criticou. O presidente da comissão, o socialista João Cravinho, considerou a resolução do Conselho de Ministros um "documento sério, profundo, difícil de realizar, mas necessário", deixando ainda assim um aviso: "O diabo está nos pormenores."
Cravinho manifestou-se preocupado com "os problemas da coesão social" e afirmou que "é preciso evitar a guetização dos programas regionais". O presidente da comissão aproveitou ainda para defender o principio dos "fundos revólver": quem recebe apoio hoje e tem condições para singrar, devolve à sociedade os benefícios que teve.
Para o social-democrata Mendes Bota "as opções estratégicas são pacíficas, não pode é haver nenhum PO que absorva de tal maneira fundos que ponha em causa o objectivo fundamental que é corrigir as disparidades regionais".


