Milhares em Madrid contra visita do Papa: "Não com os meus impostos"

17.08.2011 - 21:20 Por António Marujo, em Madrid
“Que no, que no con mis impuestos”, não com os meus impostos. O centro de Madrid assiste a uma grande manifestação de largos milhares de pessoas que, na véspera da chegada do Papa Bento XVI à capital espanhola, protestam contra o que consideram os gastos do erário público com a visita de Bento XVI.
A organização da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) tem defendido que a iniciativa tem um custo zero para o erário público e que, pelo contrário, Espanha ganhará 100 milhões de euros com a realização da JMJ. Depois da sua realização, as contas da JMJ serão submetidas a uma auditoria.
Humor, palavras de ordem, calor no ar, calor em algumas discussões entre manifestantes e participantes da JMJ, alguns insultos, houve de tudo nesta manifestação que os organizadores – a associação Europa Laica e Redes Cristianas, a que se juntaram outras 150 organizações – consideraram ter ultrapassado as expectativas.
Por volta das 21h15 (hora de Portugal) viveram-se alguns momentos de tensão entre manifestantes e polícia, com as forças de segurança a fazerem a algumas cargas sobre os populares. As coisas acabaram por acalmar, depois de terem sido feitas algumas detenções.
Durante mais de uma hora, a Puerta del Sol – onde estiveram acampados durante largas semanas os “indignados” de Madrid – viu desaguar muita gente, vinda da rua Carretas e da praça de Tirso de Molina.
“Clericalismo agressivo, não”, “Estado laico” ou “Não com os meus impostos”, lia-se na maior parte dos cartazes, feitos em fotocópias e transportados por centenas de pessoas. A par de outros como “Fechar o Vaticano, Guantánamo mental”.
Aos cartazes acrescentavam-se as palavras de ordem gritadas pela multidão: “Menos religião e mais educação”, “Menos curas [padres] e mais cultura”, “Aborto sim, pedofilia não”, “Vem o Papa, cuidado com as crianças”, “O vosso Papa é um nazi” – e, neste caso, braços e dedos esticavam-se na direcção dos grupos de jovens participantes da JMJ que, na Puerta del Sol, agitavam bandeiras e gritavam as suas palavras de resposta.
“Esta é a juventude do Papa”, diziam, ouvindo em resposta “esta não é a juventude do Papa”, de uma multidão claramente superior em número naquele lugar. Na manifestação contra a visita de Bento XVI viam-se muitos jovens, mas ela incluía gente de todas as idades. De vez em quando, velhos e novos gritavam, saltando: “Eu sou, eu sou, eu sou pecador”. E quando, a meio do desfile, apareceu um carro com três figurantes – um “papa”, com uma “mitra” pontuada pelo símbolo do euro, e duas “freiras” – o salto redobrou.
Paco, 58 anos, trabalhador de jardinagem, não tinha dúvidas: “Se Jesus Cristo estivesse aqui, estaria connosco.” E Angel, 65, professor universitário, “ateu manifesto e furibundo”, acrescentava: “Há um integrismo católico semelhante aos muçulmanos.” Angel contestava a presença dos participantes da JMJ na praça, mas atribuía a responsabilidade maior à polícia. “Só por Deus, e repare na ironia, não houve violência”, dizia ao PÚBLICO.
Havia espaço para tudo. Incluindo para perguntas filosóficas: “E Deus, quem é?”, dizia um autocolante na camisa de um manifestante. E para, aproveitando tantos potenciais clientes, um funcionário de uma loja de penhores distribuir folhetos: “Compro ouro.” A crise pode tocar a todos, mais vale prevenir.
Notícia actualizada às 21h50


