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Bandidos e caos no caminho até às fronteiras

Milhares de estrangeiros tentam escapar à violência na Líbia

22.02.2011 - 14:52 Por Dulce Furtado

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Alguns cidadãos estrangeiros conseguiram apanhar voos para os seus países Alguns cidadãos estrangeiros conseguiram apanhar voos para os seus países (Foto: Muhammad Hamed/Reuters)
Dezenas de milhares de pessoas oriundas de vários países estão a tentar fugir da Líbia, após os violentos ataques das autoridades contra os manifestantes anti-regime nos últimos dias, quando se espera que o líder líbio Muammar Khadafi vá hoje mesmo à Praça Verde, em Trípoli, para anunciar um plano de reformas.

A televisão líbia anunciou que o coronel, que governa autoritariamente há 42 anos, "vai falar ao povo líbio". Segundo a agência noticiosa britânica Reuters, Khadafi irá anunciar um plano para devolver o poder aos governos locais – numa altura em que, ao fim de nove dias de contestação, várias regiões do país estão já fora do controlo das autoridades e se assiste a um êxodo maciço tanto de líbios como de cidadãos de outros países.

A violência na Líbia, em que as forças de segurança tentam dispersar os protestos atirando sobre os manifestantes e bombardeando cidades inteiras, causou já pelo menos 233 mortos só na última semana (segundo a Human Rights Watch). Milhares estão agora em fuga, encontrando pelo caminho, até às fronteiras com os países vizinhos, apenas caos e bandidos.

Hassan Kamel Mohamed, um metalúrgico egípcio de 24 anos, descreveu a viagem desde Tobruk até à fronteira da Líbia com o seu país natal como um “horror”: “Havia bandidos em todo o lado, durante todo o caminho, a apontar-nos armas. Tentávamos dormir à noite, mas não conseguíamos, os bandidos disparavam para o ar a cada 15 minutos. Tiraram-nos o dinheiro, levaram-nos tudo”.

Outro dos milhares de egípcios em fuga, Mohamed Bayoumy, contou que ao longo dos três dias em que viajou com mais uma vintena de refugiados dos confrontos, pela parte ocidental da Líbia até à fronteira com o Egipto, foi atacado inúmeras vezes por grupos de bandidos armados ao longo das estradas, exigindo-lhes dinheiro para os deixarem passar ilesos. “A situação está muito má para os egípcios na Líbia agora”, lamentou um outro homem quando finalmente se acercava da fronteira com o Egipto.

Estima-se que cerca de 10 mil cidadãos egípcios estão a tentar escapar à violência – dos cerca de um milhão a um milhão e meio que residem naquele país – e outros mais de quatro mil terão já conseguido chegar ao Egipto desde que começou, há nove dias, a vaga de contestação ao regime de Muammar Khadafi.

Do lado egípcio da fronteira foram montados hospitais de campo e reforçada a presença militar, mas mantendo um corredor humanitário aberto em permanência para ajudar as pessoas em fuga; enquanto em território líbio não há guardas fronteiriços nem polícia, mas antes multidões de homens e rapazes, empunhando paus e com armas a tiracolo, que gritam slogans contra Khadafi.

O ministro egípcio dos Negócios Estrangeiros, Ahmed Aboul Gheit, aconselhou hoje mesmo os seus compatriotas na Líbia a “manterem-se em casa, longe das ruas, permanecendo seguros com abastecimentos de comida e água”. O diplomata sublinhou que, neste momento, se tornou especialmente difícil obter autorizações para fazer voos para e a partir de Bengasi – a segunda maior cidade da Líbia – uma vez que as pistas do aeroporto estão totalmente destruídas na sequência dos confrontos dos últimos dias.

A agência das Nações Unidas para os refugiados apelou a todos os países vizinhos da Líbia para que mantenham as suas portas abertas às vagas de refugiados, ao mesmo tempo que inúmeros países – incluindo Itália, Turquia, Portugal, Reino Unido, China e Estados Unidos – estão a pôr em marcha já métodos de retirarem os seus cidadãos do país, prioritariamente por via aérea e marítima.

Muitas das várias empresas petrolíferas presentes na Líbia estão já hoje também a proceder ao repatriamento dos seus trabalhadores – é o caso da espanhola Repsol e da holandesa Shell, assim como da italiana Eni e da francesa Total – e, em alguns casos a anunciar mesmo a suspensão das suas operações no país.

Notícia actualizada às 15h20

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