O PRI pode ganhar as eleições de hoje no México, ainda que sem maioria absoluta. E se isso acontecer poderá decidir o próximo Presidente, dentro de três anos.
A velha formação de Elias Cales (1877-1945) atravessou três quartos da história do país, esmagando paulatinamente todas as oposições, muitas vezes sem olhar a meios, até à sua humilhante derrota em 2000, quando perdeu o poder para o PAN e Vicente Fox.
O acto, a certa altura pouco surpreendente, tendo em conta os métodos priístas, foi uma das grandes mudanças políticas na América Latina de fim de século. Tinha chegado ao fim a “ditadura perfeita”, como lhe chamou Vargas Llosa.
Mas Fox, se atraiu pelo estilo desenvolto, de gestos largos, sombrero e botas de vaqueiro, e promessas de mudança, talvez por ter servido, e com brio, a Coca-Cola, que o tornaram o Presidente com maiores índices de popularidade na história recente do país, desiludiu. O seu programa de reformas não agradou ao Congresso, a sua vida privada, em torno do casamento com a sua porta-voz, Marta Sahagún Jiménez, caiu mal na rua, os contenciosos que arranjou com os Estados Unidos, por causa da guerra do Iraque, com o Mercosul e com vários países não fizeram dele um interlocutor simpático. E foi obrigado a antecipar a saída três meses antes do fim do mandato, a entregar o poder a outro panista, Felipe Calderón, o actual Presidente, e a regressar às suas indústrias de alimentos.
O novo líder mexicano apostou forte no cargo e apontou os canhões ao crime organizado, da indústria de sequestros ao narcotráfico, mas a quantidade de desafios com que foi confrontado, económicos e sociais, e o desgaste da governação acabaram por pesar.
Hoje, de acordo com uma sucessão vertiginosa de sondagens, o Partido Revolucionário Institucional, que perdeu o monopólio do poder há dez anos, deverá tornar-se outra vez o primeiro partido mexicano. Os cálculos creditam-lhe mais ou menos 34 por cento, contra 20 da formação no poder e só 13 da esquerda de Andrés Manuel López Obrador, que passará para um vergonhoso (a expressão é dos analistas) terceiro lugar.
Os motivos da previsível reviravolta são vários, circunstanciais e de fundo, escreveu há dias Fernando Escalante Gonzalbo, analista da página electrónica Infolatam.
Se o PRI obteve péssimos resultados nas eleições de 2006, isso deveu-se à polarização da campanha entre os candidatos do PAN, Felipe Caldéron, e do PRD, Andrés Manuel López Obrador.
Mesmo assim, continuou a ser o partido com a presença mais homogénea do território mexicano, o que mais eleições locais ganhou nos últimos três anos e o que manda em 18 dos 32 estados do país.
A gestão da crise económica, a pior desde 1995, e a do combate à gripe A atraíram maus-olhados a Calderón, mesmo que os eleitores reconheçam que nenhum outro Presidente foi tão longe no combate à criminalidade, aliás o grande motivo da sua popularidade: 70 por cento.
Enfim, o PRD entregou-se a uma luta intestina pelo poder, cindiu a formação e fez fugir os votantes.
Revolução, instituição
As contas dos institutos de opinião apontam para que 20 por cento dos que votaram no partido no poder e 15 por cento dos que votaram no de Obrador vão voltar-se para o que abandonaram, que no meio da confusão fez uma oposição mais “responsável” do que estridente.
O virtual ganhador destas eleições, em que serão eleitos 500 deputados, seis governadores, 432 parlamentares estatais e 565 presidentes de câmara, nasceu em 1929, pela mão de Plutarco Elias Cales, com o objectivo de manter os veteranos da Revolução Mexicana na direcção do país. Chamava-se então Partido Nacional Revolucionário (PNR).
Nove anos depois, outro Presidente, Lázaro Cárdenas del Rio, rebaptizou-o Partido da Revolução Mexicana, como foi tratado até 1946, quando recebeu a terceira e última designação para significar que já não seria liderado pelos antigos revolucionários, mas pelas instituições.
Realmente transformou-se numa instituição, mas no pior sentido, dizem os críticos, que o acusam de ter criado uma democracia de aparências, marcada pela corrupção, o compadrio, as fraudes eleitorais, o dedazo presidencial, ou a escolha de delfins, a repressão (Tlatelolco, 1968, Corpo de Cristo, 1971), a violência, incluindo a organizada, com o assassínio de bispos (Jesús Posadas, 1993) e candidatos a cargos públicos (Luís Donaldo Colosio, 1994), a impunidade (Luis Echeverría Álvarez), um esquema de tal maneira oleado que o escritor peruano Mario Vargas Llosa lhe chamou a “ditadura perfeita”.
Foi este o partido que em 2000 foi expulso do poder e que hoje poderá voltar, com analistas a admitirem que decidirá as próximas presidenciais.
Voto nulo
Sobre o grande perdedor, o PRD, não é impossível que se esvazie, ou mesmo desapareça, e que a esquerda se reorganize.
O partido que se arroga da esquerda está a desfazer-se. Entregou-se com deleite a lutas internas pelo poder. Furioso por o candidato que apoiou em 2006, López Obrador, ter decidido fazer campanha por uma aspirante do Partido do Trabalho, ameaça mandá--lo fora, com uma série de pequenas formações a fazer figas, desejosas de construir uma grande alternativa.
Há um facto novo: uma onda de fundo a favor do voto nulo. Despontou de repente, desorganizada, espalhou-se com o Facebook, o Hi5, o MySpace, o YouTube e ameaça constituir um sério aviso aos políticos. Mas a lei mexicana, se prevê que os boletins nulos sejam considerados, não os considera nas contas finais, pelo que a censura, que poderá andar entre os sete e os dez por cento, não implicará com os resultados, que deverão recolocar o PRI de novo à frente do país. E esse seria um dos grandes acontecimentos eleitorais do ano na região.
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