Um terramoto causa um acidente num reactor nuclear em Fukushima e esse pode ser o principal factor na possível queda da União Democrata-Cristã (CDU) de Angela Merkel num estado federado (Land) do Sul que o partido governa há 58 anos e que é um dos mais importantes, mais ricos e mais populosos do país.
Não é a teoria do caos, segundo a qual um bater de asas de borboleta num sítio pode ter efeitos do outro lado do mundo. Fukushima fez despertar o medo profundo que os alemães têm do poder nuclear, ainda por cima num dos Länder em que esta preocupação é mais alta, e em que o candidato da CDU, o governador Stefan Mappus, é um grande defensor da energia atómica.
A última sondagem, do Instituto Forsa, dava uma vantagem de cinco pontos percentuais à coligação Verdes-SPD (Partido Social-Democrata), com 48 por cento, sobre a aliança CDU-FDP (Liberais), com 43 por cento, uma diferença maior do que os três pontos da sondagem da semana anterior. Mas com 40 por cento de indecisos, havia espaço para surpresas.
Se os Verdes forem mesmo o partido mais votado, terão oportunidade para chegarem, pela primeira vez, à chefia de um estado federado. E se isto acontecer será tanto por mérito da sua oposição ao nuclear, como pela perda de credibilidade de Merkel nesta questão, e pelas questões levantadas pelo seu estilo de liderança, que muitos consideram agora demasiado pronto a alterações ditadas pela opinião pública. Uma imagem sublinhada, aliás, pela abstenção alemã na votação no Conselho de Segurança sobre a Líbia, em que, dizem os críticos, querendo agradar à tendência pacifista dos alemães, a chanceler deixou o país isolado (ao lado da China e Rússia e não da França, EUA e Reino Unido). Também a posição dura em relação aos planos de resgate dos países do euro, impopulares entre o eleitorado alemão, tinha sido criticada por partidos como o SPD, que acusam a chanceler de falta de empenho no projecto europeu.
Após o acidente japonês, Merkel reagiu rapidamente. A opinião pública alemã é especialmente hostil à energia nuclear: mais de 80 por cento dos alemães dizem-se "muito preocupados" ou "preocupados" com os perigos do nuclear, e mais de 70 por cento aceitariam pagar 20 euros por mês para não terem centrais a funcionar no seu território.
Merkel, que há seis meses anunciava que iria estender mais alguns anos a vida das centrais alemãs, que, segundo um compromisso feito pelo Governo SPD-Verdes (1998-2005), iriam ser desactivadas até 2020, anunciou o encerramento imediato - embora sublinhasse que era uma medida temporária - de sete reactores nucleares entre os 17 do país (dois deles no estado de Baden-Würtemberg). Foi como se o Papa começasse a defender a pílula, comparou a revista "Der Spiegel".
A reviravolta de Merkel desagradou tanto à maioria dos opositores da energia atómica, que se questionam sobre quais poderão ser as posições futuras da chanceler sobre a questão, como aos defensores: a "Spiegel" apontava os grandes custos desta marcha-atrás - 500 milhões de euros apenas pelo período de três meses de encerramento das centrais.
Segundo uma sondagem, 71 por cento dos alemães acham que Merkel foi "oportunista" por causa das eleições, disse Manfred Güllner, director da empresa Forsa. "As pessoas podem dar o benefício da dúvida, quando há uma mudança gradual, mas quando alguém muda abruptamente é visto como oportunista", comentou. "A decisão foi claramente muito nociva."
Merkel entrou em pânico com o que aconteceu no Japão e a sua reacção foi motivada pelo medo, considerou Daniel Gros, chefe do Center for Policy Studies, ao canal Bloomberg. "Isto não projecta a imagem de alguém que está no comando." Até um responsável da CDU no estado federado, Thomas Strobel, afirmou que o volte-face de Merkel "certamente não ajudou [a CDU] a curto prazo".
Nos inquéritos de opinião feitos logo a seguir à crise, Merkel é classificada como "pouco credível" por metade dos inquiridos numa sondagem Forsa, enquanto há seis meses, 68 por cento pensavam o contrário.
Um estado forte



