Mercedes-Benz coloca a sua estrela na boina de Che Guevara e acaba a pedir desculpa

16.01.2012 - 20:25 Por Isabel Gorjão Santos
A ideia poderá ter parecido “revolucionária”, mas acabou por tornar-se desastrosa. A Mercedes-Benz usou a imagem de Che Guevara para promover um novo produto, indignou a comunidade cubana no exílio e acabou a pedir desculpa.
Che Guevara a vender automóveis de luxo é uma ideia insólita, destinada a causar polémica. Mas foi isso que fez a Mercedes-Benz quando, na semana passada, anunciou um novo produto. A estrela de cinco pontas na boina do guerrilheiro foi substituída pelo símbolo da Mercedes e as críticas não se fizeram esperar.
A imagem de Che Guevara não foi usada por acaso. O presidente da Mercedes- Benz, Dieter Zetsche, estava na Consumer Electronics Show (CES), feira dedicada à electrónica de consumo que todos os anos se realiza em Las Vegas, a apresentar uma nova aplicação que ajuda a partilhar o carro entre pessoas que se deslocam para o mesmo destino. A CarTogether, disse Zetsche, permite aos passageiros partilhar viagens, através do acesso a redes sociais, e ajuda assim a diminuir o trânsito e as emissões de dióxido de carbono.
Até aqui, nenhuma controvérsia. A polémica começou quando, no ecrã por detrás de Zetsche, apareceu a famosa fotografia que Alberto Korda tirou a Che Guevara, com o guerrilheiro de boina a olhar o vazio, que se tornou um ícone estampado em milhares de t-shirts ou bandeiras. Só que, em vez da estrela de cinco pontas, na boina estava a estrela da Mercedes.
“Alguns colegas pensam que partilhar o automóvel ronda o comunismo”, disse Zetsche. Nesse caso, acrescentou, “viva a revolução”. O presidente da Mercedes terá procurado ter graça, mas acabou por desencadear uma chuva de críticas, desde logo por parte de cubanos no exílio fortemente críticos para com o guerrilheiro que foi um dos mentores da revolução cubana e para com o regime que dela resultou, liderado primeiro por Fidel Castro e agora pelo seu irmão, Raúl Castro.
Da sala de conferências em Las Vegas, a imagem de Che Guevara com a estrela da Mercedes na boina chegou depressa à Internet e aos cubanos o exílio. Ernesto Ariel Suárez, um cubano que vive em Kansas City, nos EUA, começou uma campanha na Internet. “Digam à Mercedes-Benz que não é correcto usar a imagem de um assassino em massa”, defendeu. “A ideia é fazer com que a Mercedes-Benz, e por extensão a Daimler, [empresa que controla a Mercedes a Alemanha], peçam desculpam sem que tenham de passar sete décadas”, escreveu no “site” anticastrista Café Fuerte, citado pelo El País. “É preciso fazer entender a estas empresas, de uma vez por todas, que a imagem que usam é dolorosa para muitos”.
O pedido de desculpas chegou, e nem um dia depois. Através de um comunicado, a Daimler procurou pôr fim à polémica. “No seu discurso na CES, o Dr. Zetsche referiu-se à revolução no sector automóvel possibilitada pelas novas tecnologias, em particular as mudanças proporcionadas pela conectividade. Para ilustrar isso, a empresa usou brevemente uma imagem de Che Guevara (que foi uma das muitas imagens e vídeos da apresentação). Daimler não estava a apoiar a vida ou as acções deste personagem histórico ou a filosofia política que defendia. Pedimos desculpa aos que se sentiram ofendidos.”
A Mercedes-Benz dificilmente poderia ter escolhido alguém mais capaz de despertar paixões e ódios. Che Guevara, mentor da revolução cubana de 1959, foi capturado e assassinado por militares na Bolívia em 1967 e é considerado pelos seus admiradores um símbolo de rebeldia ou luta contra a injustiça social. Mas para muitos cubanos no exílio, o guerrilheiro que ajudou Fidel Castro a chegar ao poder foi um criminoso responsável por assassínios em massa. Nem uns nem outros terão gostado de ver a estrela da Mercedes na boina de Che Guevara, mas foram os exilados cubanos que deram início a uma campanha contra a fabricante de automóveis.


