Manuel Vicente

Há um espelho com uma história pendurado numa das paredes de casa de Manuel Vicente, com mapas desenhados. "Um grupo de amigos deu-o a um restaurante chamado Cinco Continentes. Um dia, vi isto na rua e fiquei tão apaixonado que o comprei logo. Viajei com ele ao colo num daqueles triciclos de rodas." Não é fácil imaginar o arquitecto a atravessar Macau carregando nos braços um objecto que terá mais de dois metros de comprimento." />
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Há uma década, os portugueses viviam o seu último dia como administradores do território

Macau veio com os portugueses que regressaram

19.12.2009 - 09:58 Por Francisca Gorjão Henriques

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Manuel Vicente no seu apartamento em Lisboa Manuel Vicente no seu apartamento em Lisboa (Daniel Rocha)
"Em qualquer sítio, estou em casa"
Manuel Vicente

Há um espelho com uma história pendurado numa das paredes de casa de Manuel Vicente, com mapas desenhados. "Um grupo de amigos deu-o a um restaurante chamado Cinco Continentes. Um dia, vi isto na rua e fiquei tão apaixonado que o comprei logo. Viajei com ele ao colo num daqueles triciclos de rodas." Não é fácil imaginar o arquitecto a atravessar Macau carregando nos braços um objecto que terá mais de dois metros de comprimento.

E hoje o espelho ali está, no seu apartamento no centro de Lisboa. Como está um "niño imperador" em madeira, que trouxe das Filipinas, uma tapeçaria Jean Lurçat que era dos bisavós, com borboletas azuis esvoaçantes, ou um crucifixo de prata usado em procissões que veio de casa dos seus pais. A lista poderia fazer-se bem mais longa.

Não se esperava, por isso, ouvir o que dirá a seguir: "A minha relação com o passado é um pouco solta. Não é desencanto, vivo bem rodeado por estas coisas todas. Mas coisas são coisas. Não há nada meu que não seja partilhável." E também: "Gosto dos objectos por eles próprios e não necessariamente pela memória que carregam. Não ligo à carga das coisas."

Isto não é um pormenor quando se trata de alguém que viveu com um pé na Ásia e outro em Portugal. Manuel Vicente gosta de viver o presente, "o futuro inventa-se". "Tenho desgostos e lutos como toda a gente, mas acabo por sobreviver." Não fica preso aos acontecimentos, como não fica amarrado aos objectos que estão à sua volta.

E assim se explica porque não há um antes e um depois na sua relação com Macau. Para o arquitecto, hoje com 75 anos, Macau foi sendo. A palavra "adaptação" não se lhe aplica. "Em qualquer sítio sinto-me em casa."

Veio para Lisboa depois da transferência - "em 1999 havia pouco trabalho e a minha mulher estava em conflito com Macau" -, mas se esta conversa tivesse decorrido há dois anos "ia dizer que nunca tinha regressado. Continuava a andar muito por lá". Tal como andava por cá, quando vivia em Macau. "Agora o atelier [que mantém com os seus sócios] está mais em crise."

Crise como, de certa forma, também está o território, e não estamos a falar de males financeiros. "Está a viver um período de medo: medo de fazer o que não deve, e por isso decide-se que o melhor é não fazer nada. Mas isso é só um período e Macau é como os gatos, tem várias vidas e recupera sempre."

Manuel Vicente saberá o que diz, porque em 1962, tinha ele 27 anos, assentou em Macau, já depois de uma estadia em Goa, e por ali foi ficando.

"Na Índia tinha sido um deslumbramento. Mas vivíamos à margem de um acampamento militar; em Macau não. A tropa era a tropa e ninguém era importante por ser a mulher do capitão." Ou melhor: "Ninguém era muito importante porque os ricos eram os chineses."

Era um sítio "menos transbordante" que Goa. "Tudo era poucochinho, pouco denso." Mas com muito pragmatismo. "Acabou-se o ópio, veio o ouro" - "Macau viveu sempre do que não era lícito. Isso é muito engraçado. É uma cidade de traficância, como Veneza também deve ter sido." E uma cidade dada a marginalidades.

Objectos são objectos, e há outros sinais de pertença. Que não o português. "A minha pátria não é a minha língua. A minha pátria é o bacalhau cozido com batatas", ri. Aprendeu cantonense, o "suficiente para apanhar um táxi". E inventou uma língua própria para comunicar com a empregada, meio português, meio chinês.

Manuel Vicente tem dezenas de obras construídas na cidade - incluindo um conjunto de prédios de habitação social que irá ser demolido, em Fai Chi Kei. Mas, em termos arquitectónicos, não se pode falar numa contaminação evidente. "A minha arquitectura pode ter feito com que os meus colegas lá tentassem fazer melhor, por haver um ponto de referência." De resto, e em sentido inverso, "a influência de Macau em mim não é muito consciente".

Mas revela-se. Como nesta casa, onde vive e onde a sua sogra, mal entrou, afirmou logo: "Nunca estive na China, mas este apartamento lembra-me a China." Provavelmente pelo encarnado que está presente em estantes, prolongando-se até às janelas e à lareira, nos pilares que separam a zona de estar da mesa de jantar. Uma cor que inevitavelmente transporta para os templos budistas.

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