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Dez anos depois da devolução do território à China

Macau está mais perto da China?

18.12.2009 - 19:25 Por Francisca Gorjão Henriques, em Macau

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Macau procura uma identidade própria - enquanto os casinos florescem, também tenta reinventar o legado português Macau procura uma identidade própria - enquanto os casinos florescem, também tenta reinventar o legado português (Daniel Rocha)
Pouco passa das sete da manhã. O frio matinal é atenuado por uma música tradicional que se liberta a custo de um rádio. À volta, seis mulheres vão seguindo movimentos ginasticados, comandados pela voz que de vez em quando interrompe a música. Noutras zonas do jardim, chamado pelos portugueses Luís de Camões, há quem faça tai-chi, sozinho, afastando o ar com os braços, deslizando vagarosamente as pernas.

Neste segundo, e neste parque, Macau é China. Como já o era quando os portugueses entregaram a administração a Pequim, há dez anos. Nem mais, nem menos. Macau é China nos mercados, onde os peixes são cortados ao meio ainda vivos - o coração fica a bater, à vista, para provar à clientela que o produto é fresco. E Macau é China também nas calçadas portuguesas que não existiam e passaram a existir depois de os colonizadores se terem retirado: o pragmatismo face à constatação de que uma cidade de estilo europeu atrai mais turistas.

Há quem não se dê ao trabalho de pensar se, agora, depois de uma década de transferência (completa no dia 20 de Dezembro), se sente mais chinês, português, ou macaense do que antes. Vai-se vivendo, sob uma bandeira ou outra.

Isto será sobretudo verdade para a geração mais velha de chineses, que foram para Macau depois da II Guerra Mundial, sem saber se era ou se um dia deixaria de ser uma colónia. "Só queriam emprego e comida na mesa. A minha geração é mais influenciada [pelo legado português] porque foi apanhada no meio, entre duas administrações", afirma o pintor James Chu, 35 anos.

O que sentem, então, os da sua idade? Que a relação de Macau com a potência administradora é como um casamento, tanto durante os mais de 400 anos de governação portuguesa como agora. "Antes, tínhamos sido obrigados a casar com alguém que não conhecíamos. Não perguntávamos os porquês e também não nos explicavam. Tínhamos uma mulher muito bonita, com quem não precisávamos de conversar, nem estar muitas vezes, e podíamos até não acreditar nas mesmas coisas e ter um estilo de vida diferente. Agora sabemos que somos da mesma nação, falamos a mesma língua. Mas é outra vez como um casamento: começa por ser muito lindo, porque está tudo no início e há muitas expectativas. Ao fim de dez anos, já pensamos: não é mau, mas podia ser melhor."

O realizador Albert Chu (sem parentesco com James) refere que, "nos primeiros anos [a seguir à transferência], o sentimento em relação a ser chinês era mais claro. Pensava naquilo que, enquanto chinês de Macau, me relacionava com a China, a "mãe pátria", no que poderia dar ao meu país".

Não chegou a conclusões. Mas começou a mudar a sua forma de ver a cidade, e neste processo deparou-se com uma nova Macau: a que já lá estava há décadas, ou séculos, deixada pelos portugueses. "Não costumava pensar nos edifícios antigos e agora comecei a olhar mais para eles. Mas como os usar? Não podem servir só para o turismo."

É para essa pergunta que procura uma resposta, novamente sem certezas de que a vá encontrar. Até porque a cidade se está a transformar de dia para dia, com a construção de mais hotéis e de mais casinos. "As pessoas acham que Macau já não é o sítio onde viveram, já não a entendem." Sobretudo os macaenses, resultado de casamentos mistos, "sentem que estão sempre a perder alguma coisa".

Chineses mais descomplexados
Havia prognósticos pessimistas de que o português que convivia com o chinês nas placas das ruas e das lojas iria desaparecer rapidamente. Para já, não é assim. Não vale a pena dizer "bom dia" antes de pedir um prato de massa no restaurante, mas a indicação "estabelecimento de comidas" por cima da porta é frequente, mesmo nas zonas que sempre foram mais ocupadas por chineses. Há quem defenda que hoje, sem ordens vindas de Lisboa, até se convive melhor com isso.

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parabens pelo artigo

Como macaense (o meu pai e' alentejano e a minha mae de Macau), fiquei bastante contente por ler um ...

Gilberto Camacho

19.12.2009 03:03

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