Londres teme que ambições iranianas gerem "nova guerra fria" no Médio Oriente

18.02.2012 - 13:29 Por Ana Fonseca Pereira
O chefe da diplomacia britânica, William Hague, não tem dúvidas de que o Irão está a tentar desenvolver uma bomba atómica e teme que, se for bem-sucedido, isso desencadeará uma corrida às armas na região que deixará o Médio Oriente à beira de uma “nova guerra fria”.
A República Islâmica “continua claramente o seu programa de armas nucleares”, disse Hague, numa entrevista publicada neste sábado pelo jornal britânico “Daily Telegraph”, acrescentando que se os peritos iranianos atingirem os seus objectivos “então todas as nações do Médio Oriente vão querer desenvolver armas nucleares”.
O ministro diz que este é um cenário que deve preocupar não apenas a região, já que todo o mundo se veria confrontado “com a mais grave fase de proliferação nuclear desde que as armas nucleares foram inventadas” e com “a ameaça de uma nova guerra fria no Médio Oriente sem ter necessariamente todos os mecanismos de salvaguarda” criados no século XX para manter sob controlo os arsenais americanos e soviéticos.
“Isto seria um desastre internacional”, acrescentou.
Os receios de Hague foram revelados numa altura em que Israel continua a discutir – muitas vezes em público – a possibilidade de um ataque preventivo contra o programa nuclear iraniano, que Teerão insiste ter como propósito único a produção de energia atómica. O cenário preocupa tanto europeus como americanos, que receiam que a resposta de Teerão desencadeie um conflito de consequências imprevisíveis na região.
Contudo, fontes da Administração americana citadas neste sábado pelo jornal britânico “Guardian” admitem que as sanções económicas em vigor têm sido insuficientes para travar o programa nuclear iraniano, o que torna mais provável uma acção militar, americana ou israelita, até ao final do ano.
Em paralelo, há indícios de que uma guerra de baixa intensidade está já em curso entre Teerão e Telavive, de um lado com o assassínio de cientistas nucleares e acções de sabotagem do programa iraniano, a que o outro lado terá respondido, nesta semana, com planos de ataque contra diplomatas israelitas na Índia, Tailândia e Geórgia.
Na entrevista, Hague diz, no entanto, que o Reino Unido “tem sido muito claro com todas as partes envolvidas que não defende uma acção militar”. “Continuamos a apoiar a estratégia dupla de sanções e pressão, por um lado, e a de negociações por outro”, afirmou.
E neste capítulo há, pelo menos, uma boa notícia. Na quarta-feira, o principal negociador iraniano, Said Jalili, enviou uma carta à União Europeia propondo o reinício “o mais rapidamente possível” das negociações multilaterais “no respeito pelo direito do Irão ao uso pacífico da energia nuclear”.
A abertura iraniana foi saudada ontem com optimismo prudente pela chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, e pela sua homóloga americana, Hillary Clinton, mas não há ainda uma data para o reinício dos contactos, parados há quase um ano.
Notícia corrigida às 19h09


