Londres considera recepção de herói concedida a Megrahi "profundamente perturbadora" 
21.08.2009 - 10:02 Por Jorge Heitor
O ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, David Miliband, declarou hoje à BBC Radio 4 que "as imagens de um assassino de massas a ser recebido em Tripoli como um herói são profundamente perturbadoras, acima de tudo pelas 270 famílias que choram todos os dias a perda dos seus entes queridos, há 21 anos, mas também por qualquer pessoa que tenha uma réstea de humanidade".
Por outro lado, o ministro desmentiu que o Reino Unido tivesse querido que o Governo autónomo da Escócia libertasse o bombista de Lockerbie, Abdelbaset al-Megrahi, por causa dos interesses comerciais e diplomáticos britânicos. Miliband insistiu em que a decisão de Edimburgo foi tomada sem qualquer pressão de Londres.
"Fomos muito escrupulosos em dizer que esta decisão deveria ser tomada pelas autoridades escocesas. Dissemo-lo aos líbios e aos americanos. Decerto saudamos o facto de nos últimos dez anos se terem verificado significativas mudanças no compromisso líbio para com a comunidade internacional. Mas é errado dizer, neste caso, que o Governo britânico tenha de algum modo exercido pressão sobre as autoridades escocesas", disse Miliband ao programa "Today", da BBC Radio 4.
O chefe da diplomacia britânica escusou-se a especificar se concorda ou não com a decisão tomada pelo Governo da Escócia. Mas condenou em termos veementes a recepção concedida por Tripoli a um seu cidadão libertado numa base humanitária, por ser do entendimento médico de que já não deverá ter mais de três meses de vida, devido a um cancro na próstada.
Quanto à ala escocesa do Labour aproveitou a oportunidade para considerar que o Partido Nacional Escocês (SNP) "não tem capacidade para governar". Mas logo a seguir surgiram os Liberais Democratas a comentar que os trabalhistas "jogam para os dois lados", pois que de algum modo tiveram algo a ver com a libertação de Megrahi e depois apareceram em público a criticá-la.
David Miliband anunciou que o Governo britânico avisou a Líbia de que será muito importante a forma como se "irá comportar" nos próximos dias, depois desta recepção apoteótica a um prisioneiro acabado de libertar e que viajou de Glasgow para Tripoli no avião presidencial, tendo a seu lado na hora da apoteose Saif al Islam Khadafi, o mais mediático dos filhos do coronel Muammar Kadhafi, prestes a completar 40 anos no poder.
EUA falam em "erro"
O Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, esteve à frente de todos os que condenaram as autoridades escocesas por terem permitido que o alegado bombista de Lockerbie saísse da cadeia ao fim de cumprir apenas oito anos de uma prisão que em princípio deveria ser perpétua. Obama falou de "erro" ao referir-se à atitude do Governo autónomo da Escócia, que se encontra nas mãos dos nacionalistas do SNP. Mas Tripoli pareceu agradecida, pois na atmosfera festiva de ontem à noite eram acenadas bandeiras líbias e escocesas.
Obama anunciou que está a pressionar o Governo líbio para que mantenha o condenado sob prisão domiciliária, apesar de as autoridades de Edimburgo terem esclarecido que a decisão tomada não era de forma alguma no sentido de o resto da pena vir a ser cumprida no país natal.
A meio da viagem, Megrahi fez distribuir um comunicado a proclamar a sua inocência em todo este caso e a manifestar "solidariedade" com as famílias das 270 pessoas mortas na explosão de um aparelho da Pan Am sobre a localidade de Lockerbie, no dia 21 de Dezembro de 1988.
Autonomia de Edimburgo
O Parlamento escocês vai ser convocado na próxima semana, interrompendo as férias de Verão, para debater toda a polémica gerada por este caso, que além de tudo o mais trouxe a lume os novos poderes autonómicos de Edimburgo em relação a Westminster, designadamente o poder de decidir quanto ao destino dos prisioneiros.
Na declaração de 20 minutos com que ontem à tarde explicou a decisão tomada, o ministro escocês da Justiça, Kenny MacAskill, oriundo da ala esquerda do SNP, sublinhou que esta libertação de Megrahi por motivos humanitários é uma expressão clara dos "valores próprios da Escócia".
"Somos um povo que se orgulha do seu humanismo. Essa é uma das características que definem a Escócia e o povo escocês", insistiu MacAskill, que aproveitou a oportunidade para fazer a defesa da "fé e crenças" de um povo que está progressivamente a recuperar a sua antiga independência em relação à Inglaterra.
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