20 anos depois da queda do muro de Berlim

Lisboa, Berlim: as asas do desejo

09.11.2009 - 19:33 Por José Manuel Durão Barroso, Presidente da Comissão Europeia

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 (Fabrizio Bensch/Reuters)
A primeira imagem que me ocorreu quando acompanhei, pela televisão, os milhares de pessoas que derrubavam o Muro, extravasando a alegria incontida que sentiam, foi precisamente a do 25 de Abril de 1974.

A aspiração de liberdade, a ideia de uma revolução pacífica, a sensação tão difícil de descrever - mas que tantos da minha geração tiveram a felicidade de viver - de estarmos a testemunhar um dia histórico, um daqueles momentos em que se sente que tudo é possível. Mas há mais aspectos que aproximam as duas datas, a da Primavera portuguesa em 1974 e a do Outono de 1989 em Berlim. Por um lado, o carácter súbito e, em geral, inesperado como se pôs termo a regimes que em ambos os casos duravam há mais de 40 anos e que para muitos pareciam inamovíveis. Por outro, a aparente facilidade, quase miraculosa, como tudo se passou, praticamente sem recurso a qualquer tipo de violência.

No entanto, num plano pessoal, segui os dois acontecimentos de um modo bem diferente. Em 1974, tinha acabado de completar 18 anos e estava no primeiro ano da universidade. Em 1989, ocupava funções governativas, era secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, e tive ocasião de acompanhar os movimentos de transformação que então emergiam na Europa Central e de Leste: em primeiro lugar, na Polónia, resultado directo da acção do movimento Solidariedade e da intervenção determinada do seu líder, Lech Walesa, assim como da influência não tão explícita mas não menos decisiva de João Paulo II; passando pela glasnost e perestroika de Gorbatchov; pelas transformações na Hungria, país que esteve no centro do êxodo de milhares de alemães de Leste num movimento que prenunciava já o fim do regime; não esquecendo o movimento de oposição Carta 77 na Checoslováquia que teve como ícone esse grande nome da resistência ao totalitarismo que foi e é Vaclav Havel.

Compreende-se pois que tenha sido com um grande sentimento de humildade que, no passado dia 3 de Outubro, no dia da reunificação alemã, recebi em Berlim, das mãos do primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, o prémio Quadriga, também atribuído nessa ocasião a Mikhail Gorbatchov e Vaclav Havel. Estes são indubitavelmente personalidades históricas que contribuíram de modo essencial para a mudança geopolítica do nosso continente e até do mundo. Mas, ao quererem distinguir o presidente da Comissão Europeia, os organizadores do prémio quiseram sublinhar a ligação entre as transformações de 1989 e o facto de esta Comissão Europeia ser a primeira da reconciliação europeia, a primeira de uma União com uma dimensão já continental. De facto, foi aquela revolução de 1989 que tornou possível a Europa reunificada do início deste século.

Nem sempre é devidamente sublinhado que, em muitos dos movimentos de oposição ao totalitarismo, uma das reivindicações centrais era precisamente a do "regresso à Europa". Os princípios programáticos do Fórum Cívico na ex-Checoslováquia afirmavam como objectivos gerais: 1) um Estado de direito, 2) eleições livres, 3) justiça social, 4) respeito pelo meio ambiente, 5) um povo educado, 6) prosperidade e 7) o regresso à Europa. Aspirações que me transportam, mais uma vez, ao 25 de Abril de 1974 e à transição democrática portuguesa. Para nós, naquela altura, a Europa também se confundia com democracia e prosperidade social. Por isso sinto-me sempre muito próximo desta geração que viu nascer a democracia na Europa Central e de Leste e foi com convicção que partilhei com eles a alegria de uma Alemanha reunificada. A este respeito, não posso deixar de lamentar a mediocridade de alguns políticos que quiseram adiar a reunificação da Alemanha, pretendendo sentenciar dessa forma à perpétua divisão a pátria de Kant, Goethe e Beethoven. Aprendi a nutrir admiração e simpatia pela Alemanha desde os tempos em que, antes ainda do 25 de Abril de 1974, frequentava o Instituto Alemão para poder ver alguns dos filmes proibidos pela censura de então. Não me parecia por isso correcto que, já no final da década de 80, as aspirações de milhões de pessoas à democracia e liberdade ficassem comprometidas por cálculos geopolíticos.

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Presidente da CE

E voltou a ser eleito para isto... A certo passo do seu artigo diz: " ... aspirações ...

FM-GPS

10.11.2009 13:28

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