O Governo do Paquistão aceitou repor a lei islâmica nalgumas zonas controladas pelos taliban, no Noroeste do país, em troca de garantias de paz. Os críticos acusam Islamabad de estar a ceder perigosamente à Al-Qaeda.
O acordo foi estabelecido depois de conversações entre os islamistas e responsáveis do governo da Província da Fronteira do Noroeste (NWFP, na sigla inglesa). Militantes do vale de Swat, que passou de destino turístico a bastião taliban, tinham anunciado na véspera do encontro dez dias de cessar-fogo, e libertaram no sábado um engenheiro chinês sequestrado há cinco meses, como gesto de boa vontade.
“Esperamos que as coisas regressem à normalidade”, comentou Zahid Khan, secretário-geral da Awami National Party, o partido que governa a NWFP. “O nosso objectivo e desejo é a paz.”
Os confrontos entre as forças governamentais e os combatentes islâmicos já fizeram mais de mil mortos entre os civis e levaram a que vários milhares deixassem as suas casas. Todo o interior de Swat é já controlado pelos taliban, e o Exército está apenas nalgumas zonas da capital, Mingora, adianta a BBC online.
Um membro do governo local garantiu que o Presidente Asif Ali Zardari tinha já dado luz verde ao acordo que leva à imposição da “sharia” naquelas zonas do país. “Depois de negociações bem sucedidas, todas as leis não-islâmicas relacionadas com o sistema judicial, as leis contra o Corão e o Sunnah [ensinamentos do Profeta Maomé], serão canceladas e consideradas nulas”, anunciou o ministro da Informação da NWFP, Mian Iftikhar Hussain.
Os islamistas controlam Swat (130 quilómetros a norte de Islamabad) desde 2007, e já destruíram desde então mais de 200 escolas de raparigas numa campanha contra a educação feminina, e dezenas de milhar de pessoas deixaram as suas casas para fugir à violência, recorda a Reuters.
Há muito que os religiosos mais conservadores pretendem aplicar no vale a lei islâmica para substituir as leis seculares, impostas quando o antigo principado foi incluído na federação paquistanesa, em 1969. Não será só no vale de Swat que a população estará submetida à “sharia”, mas em toda a região de Malakand, que inclui ainda Kohistan e Hazara.
O ministro chefe da Província, Amir Haider Khan Hoti, garantiu que a decisão “não foi tomada sob pressão". E acrescentou: "Houve um movimento, um movimento de militantes em Swat, mas não em todo o distrito de Malakand."
O acordo foi assinado com Maulana Sufi Mohammad, um líder religioso radical que liderou a revolta em Swat na década de 1990 para impor a lei islâmica. Foi detido depois de liderar milhares de combatentes para lutar contra a presença norte-americana no Afeganistão, mas libertado no ano passado para evitar confrontos.



