A nova ronda negocial entre o Kosovo e a Sérvia, mediada pela União Europeia (UE), começou na segunda-feira em Bruxelas, mas foi cancelada devido ao aumento exponencial da tensão no Norte do Kosovo.
A delegação sérvia “não estava preparada para prosseguir” com as negociações, informou Robert Cooper, diplomata da UE. As conversações foram adiadas na terça-feira depois de os confrontos que ocorreram nas fronteiras do Norte do Kosovo terem resultado em várias feridos - seis sérvios kosovares e quatro membros da força de manutenção da paz da NATO no Kosovo (Kfor).
A força internacional garantiu que as suas tropas usaram gás lacrimogéneo e balas de borracha contra um grupo de sérvios kosovares que lançavam bombas artesanais para bloquear a circulação de uma estrada em Jarinje, na fronteira com a Sérvia, em protesto contra o embargo às exportações dos produtos sérvios. Um porta-voz da Kfor, Kai Gudenoge, afirmou ontem à Reuters que foram atacados por “centenas de manifestantes” e que reagiram “em legítima defesa”.
Porém, o ministro sérvio para as questões do Kosovo, Goran Bogdanovic, considerou o procedimento da NATO “totalmente inaceitável”. Um médico do hospital na zona sérvia da cidade de Mitrovica, que tratou as vítimas do confronto, contou que os seis civis feridos foram alvejados por balas verdadeiras.
Depois do cancelamento das conversações, o diplomata da União Europeia disse em comunicado que a violência na fronteira no Norte do Kosovo “não fazia parte do diálogo nem era tema de quaisquer negociações de separação com a Sérvia”. “O diálogo irá continuar quando a Sérvia estiver pronta para comprometer-se outra vez”, contou Cooper.
O negociador sérvio, Borislav Stefanovic, explicou que o diálogo não poderia recomeçar até que a situação no Norte do Kosovo fosse resolvida. “Discutir o acesso e passagem nas fronteiras é uma prioridade para nós neste momento, e não existe mais nenhum outro tópico”, citava-o o site de notícias sérvio B92.
Disputas pelo controlo das fronteiras sem fim à vista:
Os postos fronteiriços de Brnjak e Jarinje têm sido bloqueados pela população sérvia kosovar, que disputa a independência declarada unilateralmente pela antiga província autónoma do Kosovo, em 2008. Pristina foi forçada a colocar unidades especiais da polícia para garantir que as restrições alfandegárias fossem respeitadas, o que causou um aumento da tensão e levou à intervenção ao Kfor, que fechou a fronteira e encarregou-se da segurança na zona.
Descontentes com a lei de Pristina, os sérvios kosovares decidiram bloquear os acessos à fronteira e construíram uma rota alternativa para a circulação de produtos oriundos da Sérvia.
As tropas do Kfor estiveram nesta quarta-feira a reforçar as suas posições em Jarinje, destacando veículos blindados, sacos de areia e arame farpado, segundo testemunhas da Reuters.
Novos confrontos despontaram hoje, desta vez em Kosovska Mitrovica, etnicamente dividida por sérvios e albaneses, cidade no Norte do Kosovo. “Três albaneses kosovares foram agredidos no bairro de Cesmin por um grupo de sérvios”, declarou à AFP o porta-voz da polícia kosovar, Besim Hoti.
“As pessoas agredidas fazem parte de um grande grupo de funcionários envolvido num projecto ambiental apoiado pela USAID”, contou o porta-voz da Agência norte-americana para o Desenvolvimento internacional.
O secretário de Estado sérvio responsável pelo Kosovo, Oliver Ivanovic, citado pela agência Beta, apelou à calma. “Peço que acalmem todos os ânimos porque não serve aos interesses de ninguém”. Este tipo de incidente é, porém, frequente.



