Kirchner regressa ao trabalho com críticas a Cameron sobre as Malvinas

26.01.2012 - 20:20 Por Isabel Gorjão Santos, com AFP
De pescoço descoberto, a mostrar a cicatriz da operação à tiróide, a Presidente da Argentina, Cristina Kirchner, regressou nesta sexta-feira à Casa Rosada e acusou o primeiro-ministro britânico David Cameron de querer fazer da Argentina um país “violento” a propósito do diferendo sobre as ilhas Malvinas.
A Argentina invadiu as Malvinas – Falklands para os britânicos – há 30 anos e foi derrotada na guerra que travou com o Reino Unido, mas o diferendo sobre o território continua a marcar as relações entre os dois países. Na semana passada o primeiro-ministro David Cameron acusou os argentinos de “colonialismo” por não respeitarem o direito de autodeterminação dos habitantes do arquipélago, e agora Kirchner acusou-o de querer transformar os argentinos em “rapazes maus e violentos”.
“Ouvi que chamaram colonialistas aos argentinos”, disse Kirchner. “Querem converter-nos em rapazes maus ou em rapazes violentos, que não somos”, adiantou. Na sua primeira aparição em público, depois de ter sido operada a um tumor na tiróide, a 4 de Janeiro, a Presidente da Argentina mostrou a cicatriz no pescoço e disse: “Pensei usar um lenço, mas o diário Clarín ia publicar que não houve operação nenhuma, que foi uma invenção para fugir às minhas obrigações.”
Antes da operação chegou a ser divulgado que Kirchner sofria de cancro na tiróide, mas essa hipótese acabou por ser descartada. Nesta sexta-feira foi recebida com aplausos de apoiantes na Casa Rosada.
“O Comité de Descolonização das Nações Unidas tem 16 processos de lugares que são colónias, dez delas de Inglaterra, e as mais emblemáticas são as nossas ilhas Malvinas”, disse. “Nós não fizemos parte de nenhuma força invasora de nenhum país. As nossas forças armadas só participam em missões de paz e isso é uma decisão política dos governos democráticos desde 1983”, o ano em que a ditadura militar foi derrubada na Argentina.
Ao citar uma lista de empresas britânicas na Argentina, Kirchner aconselhou Cameron a contactar com os responsáveis dessas organizações. “Parece-me que o primeiro-ministro deveria ter uma conversa com os empresários [britânicos] para que lhe digam como são os argentinos”.
A Presidente da Argentina anunciou ainda que irá tornar público o relatório Rattembach sobre a guerra das Malvinas de 1982, realizado por uma comissão de representantes das forças armadas e que foi considerado secreto pelo regime ditatorial. “Ali é claramente demonstrado que aquilo não foi uma decisão do povo argentino, mas de uma junta desesperada por encobrir a tragédia de 30 mil mortos e desaparecidos e uma economia devastada, à qual não ocorreu melhor ideia do que mandar para uma guerra suicida rapazes que não estavam preparados”, disse Kirchner.
A Argentina invadiu as Malvinas em 1982 e foi derrotada pelo Reino Unido – que ocupava aquele território desde 1833 –, após um conflito que se prolongou por dois meses, de Abril a Junho –, mas continua a reclamar a soberania sobre o território e a apelar a negociações no âmbito da ONU. No conflito morreram pelo menos 649 argentinos e 255 britânicos.

