Em Trípoli houve violentos confrontos entre as forças leais a Khadafi e os revoltosos que querem depor o regime, mas a tomada da capital não estará para breve. O líder líbio, confinado à capital, voltou a discursar e a ameaçar os manifestantes. “Triunfarei sobre os inimigos”.
As forças de Khadafi já perderam o controlo de várias regiões no Leste e Oeste do país e até de algumas regiões de Trípoli. A capital é agora o palco de violentos confrontos, com as forças leais a Khadafi a disparar sobre os opositores e a população que saía das mesquitas.
“Os disparos começaram quando ainda estávamos a rezar, e quando as pessoas estavam a sair dispararam sobre elas”, contou um residente à BBC. “Muitos dos meus vizinhos morreram hoje. O meu irmão foi alvejado numa perna. A situação é horrível. Há helicópteros no ar e chovem balas do céu”. A Al Jazira noticiou que pelo menos duas pessoas morreram e várias ficaram feridas na capital líbia, a Al Arabiya falava em sete mortos, mas o número de vítimas é quase impossível de confirmar. Os mortos contam-se agora em milhares e não em centenas, disse o embaixador adjunto da missão líbia na ONU Ibrahim Dabbashi.
Após as orações, muitas pessoas terão sido atingidas pelos disparos à porta das mesquitas. “Simplesmente começaram a disparar. As pessoas foram mortas por atiradores e não sei quantas morreram”, contou uma testemunha à Reuters. Grupos de manifestantes anti-regime foram dispersos pelas forças de segurança leais a Khadafi em algumas partes de Trípoli, mas noutras os protestos continuaram.
Os confrontos na cidade de Zauia, que fica a 44 quilómetros da capital e caiu na quinta-feira nas mãos dos opositores, causaram pelo menos 35 mortos. As forças de Khadafi já abandonaram também Misurata, a terceira cidade do país, e em Bengasi, a primeira a ser “libertada”, foi criado um governo informal e comités para gerir a segurança e os abastecimentos. Será isso que está a acontecer também em Yefren, Zenten e Jadu, todas na região das Montanhas Ocidentais, que também já foram tomadas pelos movimentos de revolta.
“Preparem-se para defender a Líbia
Foi com boa parte de Trípoli debaixo de fogo que Khadafi voltou a aparecer, pela quarta vez desde o início dos confrontos. Discursou na Praça Verde, fortemente controlada pelas suas forças, aquela que os manifestantes querem tomar. E apelou à população para pegar em armas contra os opositores. “Preparem-se para defender a Líbia. Preparem-se para defender o petróleo”. E adiantou: “Este é o povo líbio que fez ajoelhar a Itália [o antigo colonizador]. Respondam-lhes, faça-nos sentir vergonha. Eu estou em Trípoli e na Praça Verde”.
No seu curto discurso, de cinco minutos, Khadafi manteve-se irredutível. “Nós podemos derrotar qualquer agressão, se necessário – interna ou internacional”. E sem abandonar o tom de ameaça, reiterou o apelo aos seus apoiantes para pegarem em armas. “Quando for necessário, abriremos todos os depósitos de armas ao povo da Líbia”. Desta vez, não recorreu ao argumento que tinha usado na véspera, quando se referiu aos manifestantes que se lhe opõem como “jovens de 17 anos a quem estão a pôr drogas alucinogénicas na bebida”.
O discurso foi acolhido em Shahat no Leste do país, com gritos de “carniceiro” e “assassino”. Mas diante de Khadafi, em Trípoli, estava uma multidão a acenar bandeiras, e a apoiá-lo está sobretudo a milícia Khamis, 9000 homens armados com carros de combate e aviões e liderados por um dos filhos do homem que governa a Líbia há mais de 40 anos.
A contestação à violência já ultrapassou há muito as fronteiras do país. O Conselho dos Direitos Humanos da ONU, reunido esta sexta-feira em Genebra, exigiu inquérito às violações cometidas na Líbia e ao final do dia o Conselho de Segurança da ONU reuniu para debater a aplicação de sanções.
O fim da violência, o embargo de venda de armas e o congelamento dos bens das principais figuras do regime de Khadafi são três dos pontos que figuram no projecto de resolução do Conselho de Segurança da ONU sobre a Líbia apresentado hoje aos seus membros. A resolução deverá ser votada em breve.



