O clérigo reformista iraniano Mehdi Karoubi, o menos votado nas presidenciais do país, cancelou a homenagem convocada para hoje em honra dos manifestantes mortos ao longo destas quase duas semanas durante os protestos em Teerão contra os resultados do escrutínio que reconduziu ao poder o Presidente, Mahmoud Ahmadinejad.
O cancelamento deveu-se a o partido de Karoubi, o Etemad Melli, não ter recebido das autoridades autorização para fazer a cerimónia, era precisado no website do candidato presidencial derrotado. “É lamentável que nesta situação não tenha sido dado um local a dirigentes políticos como Karoubi para celebrar o luto, nem mesmo uma mesquita nem o túmulo do imã”, era ali indicado, numa referência ao mausoléu em memória do fundador da República Islâmica, o Aayatollah Ruhollah Khomeini.
As manifestações e todo o tipo de reuniões públicas foram expressamente proibidas no Irão, por decreto do Ministério do Interior, após a proclamação oficial dos resultados do sufrágio presidencial, a 13 de Junho. E o Supremo Líder iraniano, ayatollah Ali Khamenei – que detém o poder máximo no país – deixou claro que não toleraria a continuação da contestação nas ruas aos resultados das eleições, que considerou legítimos, dando um expresso apoio político à vitória do ultraconservador Ahmadinejad.
Karoubi – assim como o principal rival do Presidente iraniano no escrutínio, o moderado Mir-Hossein Mousavi – denunciam a ocorrência de fraudes eleitorais e têm vindo a conseguir levar milhares de pessoas às ruas na maior crise política e social a que o Irão assiste desde a Revolução Islâmica de 1979.
Na sequência destes protestos, centenas de activistas da oposição e manifestantes têm sido presos e pelo menos 17 pessoas morreram em confrontos com a polícia anti motim. Desde ontem, o dispositivo de segurança lançado nas ruas pelas autoridades parece ter posto termo definitivo aos protestos, que já perdiam expressão, de resto, desde o início da semana.
Os líderes da oposição ao regime de Ahmadinejad prometem, porém, não abandonar a contestação, garantindo que recorrerão a todos as formas legais para pôr em causa os resultados do escrutínio. Karoubi reiterou hoje que a reeleição do Presidente é "ilegítima" e a mulher de Mousavi – académica que foi a primeira mulher no Irão a fazer campanha ao lado do marido – instou os iranianos a cumprirem o “dever de continuar os protestos para preservarem os [seus] direitos”.
Num outro sinal da profunda cisão política no Irão, uns 105 deputados parecem ter recusado o convite para celebrar a vitória de Ahmadinejad, sublinhava esta manhã a edição online da BBC. Todos os 290 membros do Parlamento foram convidados para a festa realizada ontem à noite, mas apenas 185 compareceram.


