Joaquín José Martínez, equatoriano de nascimento, trocou, em miúdo, a Espanha pelos Estados Unidos à procura de uma vida nova. Mas foi lá que quase a perdeu em 1997, aos 26 anos, condenado à morte por um duplo assassínio de que seria ilibado depois de uma campanha mundial e de muita "sorte".
Justiça? Justiça seria não o terem feito passar cinco anos na Prisão Estadual da Florida, incluindo três no corredor da morte, disse ao PÚBLICO, em Lisboa, onde veio falar, a convite da Amnistia Internacional Portugal.
Fala do que passou, dos amigos que lá deixou, mortos, da angústia que enganava lendo cartas, muitas de portugueses, das noites em que, às escuras, sussurrava com os companheiros das celas ao lado.
Hoje, aos 39 anos, é um adversário da pena de morte, luta de que fez uma espécie de profissão para ver se tira da Florida os amigos que ainda lá deixou vivos. Ao princípio perdeu a esperança. Hoje sobra dela: acredita que mais cedo do que tarde os Estados Unidos passarão para a lista dos países abolicionistas. Já dorme melhor. Mas qualquer tilintar de noite o faz saltar na cama, quando às vezes é só o fio que Mónica, a actual companheira, traz ao pescoço.
Olha com impressão para o número 202, da porta do quarto do hotel, o mesmo da cela onde esperou por um milagre. Mas abraça com entusiasmo os dias que faltam para o fim da pena de morte no mundo.
PÚBLICO - Teve mesmo a vida por um fio...
Joaquín José Martínez - Estive muitas vezes na minha vida perto da morte. Mas a experiência do corredor da morte da Prisão Estadual da Florida superou realmente tudo.
Foi vítima de uma cabala?
Fui um bode expiatório. Precisavam de encontrar um responsável pelo crime de que me acusaram. Fui o décimo segundo. Havia mais suspeitos. As vítimas foram um rapaz, Douglas Lawson, que traficava droga, e umastripteaserde umcabaret de Brandon. Acontece que ele era filho do xerife da cidade onde as coisas aconteceram...
Sim, mas também teve contra si pessoas muito próximas, como a sua ex-mulher e a sua noiva na altura.
Ao princípio foi só a minha ex-mulher. Dois dias antes telefonou ao procurador para mudar o seu testemunho contra mim.
Pressionada a isso?
Sim.
O que sentiu quando ouviu a sentença de morte?
Senti-me traído. E também uma agonia muito grande.
Traído?
Sim, pelo país que apoiava, pelo país em que acreditava. Eu até era a favor da pena capital, veja lá!
A circunstância de ser imigrante e equatoriano pesou?
Pesou. Eu era um hispânico. Dizem muitas vezes que a questão racial não é importante, mas é.
Como foi consigo?
No meu passaporte, eu não aparecia como equatoriano mas como espanhol. Eles comentavam: "Mais um espanhol!" Sei lá quantas vezes ouvi isso! Mas disseram coisas muito piores de "assassino" em diante...
E quem é que lhe chamava isso?
A polícia, os guardas.
Mas o segundo julgamento esclareceu tudo.
Sim. A minha ex-mulher voltou atrás. A minha noiva também. E o mesmo aconteceu com doze presos que tinham assinado declarações contra mim.
Também constrangidos?
Todos escreveram nos testemunhos que tinham sido aliciados com a promessa de uma redução das penas. Um dos que acabaram por dizer a verdade foi morto depois. Chamava-se Neil Ebling.
Morto, como?
Ele cumpria quatro anos. Disseram-lhe que se testemunhasse contra mim lhe reduziam a pena, que faria só quatro anos, numa prisão do Alasca, e seria solto. Mas ele enviou uma carta a contar tudo. Foi morto, a tiro, no dia 1 de Janeiro de 2001, quando, segundo a polícia, tentava escapar.
No segundo julgamento declararam-no "não culpado". Por que não "inocente"?
Nunca o fariam. Porque com isso reconheceriam que tinham cometido um erro. Ora, os norte-americanos não cometem erros... [Ri-se] Muita gente pergunta porque é que falo assim. Acontece que vivi muitos anos nos Estados Unidos e sei como são os americanos. Fui um deles, sabe? Não, eles não cometem erros...
Mas não sente que acabou por se fazer justiça?


