A junta militar birmanesa repudiou a declaração aprovada ontem pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas que “lamenta profundamente” a violenta repressão das manifestações pacíficas do mês passado em Rangum.
Num comunicado lido ao início da noite na televisão pública, o governo militar “lamenta” que o organismo máximo das Nações Unidas tenha condenado o comportamento da junta “já que a situação na União do Myanmar [nome instituído pela junta em 1974 para a Birmânia] não ameaça a paz e a segurança ao nível regional ou internacional”.
A declaração parece dirigir-se, em particular à vizinha China, tradicional aliado da junta birmanesa, que pela primeira vez adoptou uma atitude formal em relação à violência exercida pelos militares. Pequim deu o seu aval ao documento, depois de terem sido retiradas expressões mais duras que faziam parte do primeiro projecto, redigido pelos EUA, Reino Unido e França.
Na declaração, os 15 membros do Conselho de Segurança “lamentam profundamente a utilização da violência contra manifestantes pacíficos na Birmânia”, pedem a “rápida libertação de todos os presos políticos”. O texto, sem valor vinculativo, insta a junta militar e todas as outras partes envolvidas a iniciarem “um diálogo genuíno” para que “juntos, possam trabalhar num apaziguamento da situação e numa solução pacífica para a crise”.
A Liga Nacional para a Democracia (NLD), liderada por Aung San Suu Kyi, agradeceu o apoio dos 15 membros do Conselho de Segurança, “incluindo os cinco países com direito de veto” e desafiou a junta a dar seguimento, “o mais rapidamente possível”, às recomendações internacionais. A NLD lembra que o regime “anunciou a sua intenção de cooperar com a ONU” e que lhe cabe “a responsabilidade” de trabalhar a favor da “reconciliação nacional”.
Duas semanas de agitação
A Birmânia é governada pelos militares há 45 anos e as últimas eleições no país realizaram-se em 1990, quando a Liga Nacional para a Democracia (oposição), da Prémio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, venceu por larga margem o partido oficial.
Em Agosto, a junta militar anunciou medidas de austeridade, nomeadamente um aumento de mais de 500 por cento do preço da gasolina, que motivaram protestos da população.
Os protestos assumiram maior dimensão quando os monges budistas começaram a liderar as manifestações, em 18 de Setembro, levando a uma intervenção dos militares.
Desde 25 de Setembro, segundo a oposição birmanesa, a repressão das manifestações provocou cerca de 200 mortos, embora a Junta Militar apenas reconheça a morte de dez pessoas, incluindo um jornalista japonês.
A repressão das manifestações suscitou a condenação da comunidade internacional e levou ao país o enviado especial da ONU para a Birmânia, o nigeriano Ibrahim Gambari, que se encontrou com Suu Kyi e com o líder da junta militar, general Than Shwe.



