Juiz ordena reabertura do inquérito ao assassinato de Anna Politkovskaia 
20.02.2009 - 09:55 Por Dulce Furtado
O juiz encarregue do processo do assassinato da jornalista russa Anna Politkovskaia deu esta manhã ordem expressa de reabertura do inquérito, depois de os jurados terem decidido, na véspera, ilibar de todas as acusações os três suspeitos de cumplicidade no homicídio daquela severa crítica do Kremlin.
“Uma vez que os jurados concluíram que os irmãos [Djabrail e Ibragim] Makhmudov e que Serguei Khadjikurbanov não estão envolvidos no crime, pronunciarei um veredicto de inocência”, afirmou o juiz Ievgeni Zubov, encarregue do processo em tribunal militar. “E, por isso, o caso deve ser reenviado para o comité de investigações para que seja reaberto o inquérito de forma a encontrar as pessoas implicadas”, explicou, citado pelas agências de notícias russas.
Ontem, ao fim de quase quatro meses de audiências, os jurados neste julgamento declararam não haver provas cabais para dar como culpados de cumplicidade em homicídio os três homens que ao MInistério Público russo acusara na morte de Politkovskaia – abatida a 7 de Outubro de 2006, à porta de casa, no centro de Moscovo, com quatro tiros certeiros: três no peito e um na cabeça à queima-roupa, a assinatura dos assassinos contratados.
Declararam, assim, como ilibados de todas as acusações os dois irmãos tchetchenos Makhmudov, com supostas ligações à máfia russa, suspeitos de terem mantido a jornalista sob vigilância até ao seu assassínio e de terem conduzido ao local onde foi morta o suposto autor dos disparos: o irmão de ambos, Rustam Makhmudov, suposto informador dos Serviços Federais de Segurança (FSB, agência sucessora do KGB), que permanece até hoje por capturar e sem quaisquer pistas sólidas sobre o seu paradeiro.
Igualmente ilibado das acusações de cumplicidade em homicídio foi o ex-polícia Serguei Khadjikurbanov, operacional até 2002 da Unidade moscovita de Combate ao Crime Organizado, dado pela Procuradoria como organizador do assassinato de Politkovskaia. E o mesmo aconteceu com o agente dos FSB Pavel Riaguzov, inicialmente suspeito de ter servido como intermediário na contratação dos assassinos, mas que acabou por ser formalmente arrolado ao processo apenas sob a acusação de “extorsão e abuso de poder” – e num outro caso, de espancamento de um preso, que remonta a 2002, em que é co-arguido com Khadjikurbanov.
Foi a agregação de Riaguzov a este processo, de resto, que permitiu às autoridades russas levar o caso a tribunal militar; e tentarem – por diversos meios –, mas sem sucesso, manter o processo à porta fechada, alegando a necessidade de “proteger segredos de Estado”.
“Falhanço total”
Apenas um único facto constante da pronúncia de acusação foi dado como provado pelos jurados: Anna Politkovskaia foi efectivamente assassinada. Por quem? Com que motivo? E a mando de quem? Os jurados disseram não haver provas para o dizer.
Hoje a imprensa russa avaliava o desenlace do julgamento – e da prévia investigação ao caso, de enorme carga política – como um “falhanço total”. “As forças da ordem demonstraram a sua absoluta impotência no inquérito”, clamava o diário "Nezavissimaia Gazeta", apontando “uma ausência gritante de profissionalismo” aos investigadores e deplorando a apresentação, por parte do Ministério Público russo de “acusações insuficientes, que se tornaram sistemáticas na Rússia”. O "Kommersant" sublinhava que a decisão dos jurados só veio revelar como “os dois anos de inquérito foram gastos em vão” e como todo o caso “ruiu como um castelo de cartas”.
Dos Estados Unidos chegaria, ainda na noite de ontem, um apelo para que as investigações sejam retomadas: “Lamentamos que o caso do assassinato [de Anna Politkovskaia] não tenha sido resolvido. E apelamos às autoridades russas para que procurem os responsáveis e os apresentem à justiça o mais rapidamente possível”, afirmou o porta-voz do departamento de Estado norte-americano, Gordon Duguid.
Ao longo destes últimos dois anos e meio as autoridades russas foram justificando a incapacidade em trazerem à justiça o autor do assassinato – e mais ainda o seu mandante – com a multiplicidade de pistas a investigar. Sugeriram amiúde, mesmo se jamais expressamente, que a morte de Anna Politkovskaia, aos 48 anos, era um caso indecifrável.
A jornalista, extremamente crítica do Kremlin, desenvolvia profundos trabalhos de investigação denunciando as atrocidades cometidas pelo exército russo na segunda guerra da Tchetchénia – gerando ameaças explícitas por parte de militares russos – e a prática sistemática de tortura pelo governo pró-russo estabelecido naquela república do Cáucaso – “ganhando” em troca confessa antipatia por parte do Presidente techtecheno, Ramzan Kadirov, ex-combatente separatista autoproclamado nos últimos anos “fã número um” do ex-chefe de Estado e agora primeiro-ministro russo, Vladimir Putin.
A Rússia de todos os perigos
Não menos presente no trabalho de Politkosvakaia estavam as críticas à sistematização de controlo da liberdade de imprensa na Rússia por parte do Kremlin assim como as denúncias jornalísticas da corrupção que singrava na Administração de Putin.
Por ter sido morta no dia do aniversário de Putin, muitos equacionaram a teoria de que o assassinato de Politkovskaia fora organizado para agradar ao então chefe de Estado.
Antes mesmo da leitura do veredicto, familiares, amigos e antigos colegas de Politkovskaia no diário "Novaia Gazeta", acusaram a justiça russa de ter falhado “redondamente” na resolução do caso – um dos mais chocantes envolvendo a morte de jornalistas na Rússia.
O país é considerado o terceiro mais perigoso do mundo para os jornalistas pela organização não governamental norte-americana Committee to Protect Journalists: 49 profissionais foram mortos ou morreram em circunstâncias suspeitas na Rússia, desde 1992.
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