Juiz do Tribunal de Haia vai perguntar hoje a Radovan Karadzic se é culpado ou inocente

31.07.2008 - 09:58 Por Miguel Gaspar
Radovan Karadzic vai ouvir esta tarde as 11 acusações pelas quais irá responder no Tribunal Penal Internacional para a Jugoslávia (TPI-J), em Haia, mas o julgamento só devera começar dentro de alguns meses, disse ontem o principal procurador daquele tribunal, Serge Brammertz.
O antigo líder dos sérvios da Bósnia deixou a prisão em Belgrado na madrugada de ontem e voou para Roterdão, de onde seria depois transportado para o centro de detenção das Nações Unidas em Haia.
Esta tarde, o juiz Alphonse Orie vai perguntar a Karadzic se é culpado ou inocente, mas o réu, que já anunciou que tenciona conduzir a sua própria defesa, poderá manter o silêncio durante 30 dias. Será o primeiro passo de um confronto entre o ex-fugitivo preso no dia 21 em Belgrado e o tribunal que o perseguiu durante mais de uma década e terá de concluir o processo até 2010, ano em que terminará o mandato do TPI-J. E o tempo é a chave deste processo.
"Para provar os crimes graves [de que Karadzic é alvo] a acusação terá de apresentar muitos elementos de prova, incluindo inúmeros testemunhos", disse em conferência de imprensa o procurador Brammertz.
Karadzic é acusado por crimes contra a humanidade, genocídio e crimes de guerra, entre outros, durante a guerra da Bósnia, entre 1992 e 1995. Brammertz disse que está a rever a acusação, mas que tenciona julgar todos os acontecimentos pelos quais o ex-primeiro-ministro da extinta República Sprska é perseguido, segundo a agência AFP. O massacre de oito mil muçulmanos em Srebrenica e o cerco de Sarajevo são os principais factos aos quais se referem as acusações.
O procurador elogiou as autoridades sérvias, mas indicou que uma nova avaliação ao comportamento de Belgrado, vital para a aproximação da Sérvia à União Europeia, terá lugar em Dezembro, no Conselho de Segurança das Nações Unidas. "A detenção [de Karadzic] foi um grande feito da cooperação da Sérvia com o Conselho de Segurança", disse Brammertz.
Recurso não foi enviado
A presidência francesa da União Europeia falou num "passo importante (...) para a reaproximação entre a Sérvia e a Europa", mas sublinhou que Belgrado tem ainda de capturar o chefe militar de Karadzic, Ratko Mladic e o antigo responsável dos sérvios da Croácia, Goran Hadzic. As duas detenções são essenciais para o avanço dos acordos de associação da Sérvia com a UE.
A extradição de Karadzic aconteceu horas após o fim de uma manifestação convocada por nacionalistas radicais em Belgrado que terminou em confrontos com a polícia, que reuniu dez a 15 mil pessoas. A mobilização ficou abaixo do anunciado.
O Ministério da Justiça sérvio esperou que a situação acalmasse e autorizou a saída de Karadzic, em conformidade com a lei sérvia. O recurso contra a extradição pelo qual se esperava desde sexta-feira acabou por não ser entregue, reconheceu ontem o advogado de Karadzic.
Depois de ter sido submetido a exames médicos, Radovan Karadzic (que já cortou a barba), ficou instalado ontem numa cela de 15 metros quadrados no centro de detenção da ONU de Scheveningen, idêntica à que o ex-Presidente da Sérvia Slobodan Milosevic ali ocupou durante cinco anos. Milosevic morreu de ataque cardíaco na cela, antes do fim do julgamento. O processo prolongou-se por quatro anos e foi ontem lembrado como "uma derrota total" pelo procurador do TPI-J Serge Brammertz.

