Irlandeses votam para eleger a sua assembleia autónoma

Irlanda do Norte à espera do primeiro governo de colaboração entre inimigos

07.03.2007 - 10:53 Por Susana Moreira Marques, Belfast

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Hoje talvez se faça história e a Irlanda do Norte passe a ser governada de dentro e por inimigos: Sinn Féin e unionistas Hoje talvez se faça história e a Irlanda do Norte passe a ser governada de dentro e por inimigos: Sinn Féin e unionistas (PÚBLICO)
Um muro com uma cerca por cima; portões pesados grafitados, outrora cinzentos, outrora fechados; marcas de uma cancela - nem é preciso descrever mais: toda a gente sabe que isto é a Irlanda do Norte. É Belfast, fim de um bairro, início de outro.

Foram tantos os jornalistas que já estiveram aqui a descrever esta fronteira entre católicos e protestantes, e tantas as más notícias, que a imagem formada deste lugar é uma linha de fogo.

Mas não ontem, e antes de ontem, e já lá vai mais de um ano.

Este podia ser o último artigo à sombra do muro - hoje, os irlandeses do norte votam para eleger a sua assembleia autónoma, suspensa desde 2003; o que poderá ser um grande passo, depois da paz paramilitar, para a paz política. E pode deixar de haver razões para estar aqui e para descrever esta paisagem de separação.

Por uns momentos, há uma excitação, explicável porque se pensa que isto é história; que tudo será diferente.

São momentos muito breves. Desde a primeira pessoa com que se fala - o taxista - até ao final do dia - outro taxista -, a tonalidade é a mesma. Instala-se até criar textura, densidade, como o nevoeiro de Belfast que hoje não há. Chama-se desilusão.

Uma característica dos irlandeses do norte é que sabem falar de política - não conhecem vida apolítica. Outra característica é que sabem emudecer sobre política. Muitas pessoas viram-lhe o rosto, as costas, o corpo. "Nada" é o que uma senhora do bairro protestante dá à política, porque só assim parece possível viver a vida.

Em sítio neutro, na baixa de Belfast, uma mulher sai do centro de saúde e espera que a apanhem - ela não se lembra quando é que desistiu da política. No bairro católico, um homem que vende carpetes lembra-se: a última vez que ficou excitado com eleições.

Tudo isto já se viu

Tudo isto já conhece. Tudo isto já viu, como quem revê um filme e sabe qual é a cena que vem a seguir.

O que vem a seguir, conta Adrian Guelke, da Queen's University: uma votação semelhante à de 2003, uma vitória para o Partido Unionista Democrático (DUP), mas renhida. A seguir, o que acontece é: "entra-se em negociações." E aqui é que encalhamos. "Como é que dois partidos vão governar juntos se nunca, sequer, falaram um com o outro?", desabafa.

Mas é por isso que estamos aqui. Se o dia de hoje vier a dar no primeiro governo de colaboração entre os católicos do Sinn Féin e os protestantes do DUP, terá valido a pena a visita a Belfast por um bocadinho de história.

Mas pode não acontecer. E se não acontecer? Ou os governos irlandeses e britânicos cumprem a ameaça e ponto final, acabam-se as hipóteses de autonomia; ou, então, mais uma vez, ignoram o ultimato de 26 de Março e marcam outro ultimato.

Ainda que formem governo, comenta Guelke, as hipóteses são que governem mal: a tomada de decisões será um processo custoso. Apesar de tudo, Guelke tem esperança e pensa que será, depois, preciso pelo menos um ano para avaliar esse governo e perceber o balanço para a Irlanda do Norte.

Votar nestas eleições não é fácil. Porque, frisa Guelke, ninguém sabe bem ao que vota. Vota-se por uma possibilidade. Afinal, Ian Paisley só disse talvez à colaboração com o Sinn Féin, o que quer dizer que a Irlanda do Norte, hoje, pode bem votar em vão.

A Irlanda do Norte vota cansada. Ou então, até nem vota, usando a expressão do taxista do regresso, porque "está farta". Ainda assim, o dia de hoje pode marcar o princípio de uma era nova para a Irlanda do Norte, ou melhor dizendo, o fim de uma era.

As gerações mais novas irão usufruir, mas o único cantinho de esperança está com os mais velhos. alguém como Seamus Macseaim, com 70 anos, que já foi dado como morto - "e sobrevivi; e saí de tudo isto ainda muito optimista no futuro." É difícil esquecer e é difícil perdoar. Mas o mais difícil, talvez, é aceitar. Porque não se irá a lado nenhum "enquanto não se chegar a essa parte: aceitar toda a gente, independentemente do credo", diz Macseaim, e, tendo em conta os dias que correm, "isto é verdade para todo o mundo".

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