O Irão poderá romper a cooperação com a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), avisou hoje o presidente do Majlis (Parlamento), o conservador Ali Larjani, dois dias depois de aquele organismo das Nações Unidas ter aprovado uma resolução crítica da República Islâmica.
“Se o Ocidente continuar a pressionar-nos, o Parlamento pode rever o nível de cooperação com a AIEA”, disse Larijani aos deputados iranianos. “Se as potências ocidentais continuarem a usar a sua ridícula política do pau e da cenoura, também nós definiremos um novo tipo de relacionamento com o Ocidente."
Na sexta-feira, numa votação consensual, a AIEA exigiu que as autoridades de Teerão congelem imediatamente a construção de uma segunda central nuclear [próxima da cidade de Qom], cuja existência secreta foram forçadas a admitir em Setembro – até então, só aceitavam inspecções à de Natanz. A AIEA apelou ainda ao Conselho de Segurança, onde a Rússia e a China, aliados de Teerão, têm poder de veto, para que faça respeitar as resoluções que exigem do Irão o fim do enriquecimento do urânio.
A resolução da AIEA ilustra a frustração da comunidade internacional com a incapacidade de o Irão responder, positivamente e sem ambiguidades, a uma proposta para que terceiros países (Rússia e França) processassem o seu urânio iraniano pouco enriquecido (LEU, na sigla inglesa) e o transformassem em combustível nuclear. Isso permitiria o funcionamento de um reactor de investigação médica em Teerão, usado para o tratamento de diferentes tipos de cancro.
Segundo a proposta da AIEA, os iranianos teriam de entregar cerca de 1200 quilos de LEU num prazo de três meses. No seu actual stock de 1,5 toneladas ficaria menos do que a quantidade necessária (1000 quilos) para fabricar uma bomba.
A recusa do Irão em aceitar esta proposta é, por um lado, o reflexo da sua desconfiança em relação ao Ocidente e, por outro, o sinal de que, no regime, há forças que teimam em manter o país isolado. Uma dessas forças é o Corpo de Guardas da Revolução, que agora domina todas as estruturas económicas do país e não quer abdicar dos seus privilégios.
Um Irão sob vigilância não é do interesse dos guardas (Pasdaran) que, depois da guerra Irão-Iraque (1980-88), consolidaram a sua influência junto do Supremo Líder, “ayatollah” Ali Khamenei, e do actual Presidente da República, Mahmoud Ahmadinejad – cuja vitória, alegadamente fraudulenta, terão planificado nas recentes eleições de Junho.
“Esperamos que o conselho de governadores [da AIEA] reforce a mensagem de que estamos determinados a aprovar um pacote de sanções, se não encontramos um parceiro cooperante”, comentou um responsável norte-americano, citado hoje pelo diário “Jerusalem Post”, sob condição de anonimato. “Os iranianos ainda não estão convencidos de que as ameaças conduzirão a sanções”, disse ao mesmo jornal um dirigente israelita, que também preferiu não ser identificado. “Eles pensam que podem continuar a espremer o limão, e isso reflecte um debate interno sobre quando devem ceder” à pressão cada vez maior da América e da Europa.
“Há dois elementos que decidirão se a pressão será bem sucedida”, afirmou, por seu lado, Yossi Levy, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros em Telavive. O primeiro “é definir um calendário inflexível para negociações”; o segundo “é fixar um preço por cada violação [dos compromissos] por parte do Irão. Quando isto estiver em vigor, o processo diplomático ganhará ímpeto e garantirá que as sanções ao regime iraniano serão eficazes e dolorosas.”
A semana passada, a Administração de Barack Obama foi, pela primeira vez, contactada por representantes do Movimento Verde, a oposição iraniana que emergiu dos protestos contra a reeleição de Ahmadinejad. Um deles, o cineasta Mohsen Makhbalmaf, não aconselhou uma intervenção militar (como desejam os israelitas) mas recomendou “sanções inteligentes” visando, especificamente, os Guardas da Revolução.


