Human Rights Watch denuncia "silêncio vergonhoso" sobre crimes de guerra na Somália

13.08.2007 - 17:15 Por PUBLICO.PT, Agências
Os residentes da capital da Somália, Mogadíscio, têm sido alvo no último ano de "inúmeros crimes de guerra", cometidos tanto pelos rebeldes islamistas como pelas forças governamentais e o Exército etíope, denuncia um relatório da Human Rights Watch, que lamenta o "silêncio vergonhoso" da comunidade internacional.
"As forças etíopes, somalis e os rebeldes são todos responsáveis por violações graves e sistemáticas das leis da guerra" e por "inúmeros crimes de guerra", conclui o relatório divulgado hoje pela organização de defesa dos direitos humanos.
Num comunicado publicado em Nairobi, o director-geral da HRW, Ken Roth, sustenta que "todas as partes em conflito demonstram uma indiferença criminosa em relação ao bem-estar dos civis".
A Somália está em guerra civil desde 1991 e Mogadíscio — privada desde então de um Governo central — é considerada uma das cidades mais perigosas de África. A situação agravou-se desde o início do ano, quando o Exército etíope entrou no país em auxílio do débil governo de transição, acossado pelas milícias islâmicas que no Verão do ano passado tinham tomado a capital.
Em escassas semanas, o poderoso Exército etíope assumiu o controlo da quase totalidade do território, reinstalando em Mogadíscio o executivo apoiado pela ONU, mas as milícias islâmicas, que mantêm redutos na capital, continuam a atacar diariamente as forças de segurança e civis.
Maiores atrocidade atribuídas ao Exército etíope
As maiores atrocidades denunciadas no relatório são imputadas ao Exército etíope, a quem a HRW acusa de ter bombardeado "durante longo tempo e sem discernimento" zonas residenciais, no assalto que lhes permitiu assumir o controlo da capital. Já depois de controlarem Mogadíscio, os soldados do país vizinho terão saqueado inúmeros edifícios públicos, incluindo hospitais, e promoveram execuções sumárias de civis.
Já as forças governamentais da Somália "desempenharam um papel secundário em relação ao Exército etíope", mas revelaram-se incapazes de proteger as populações civis e também elas "pilharam propriedades" e abusaram dos civis.
Por seu lado, os rebeldes são acusados de terem posto em risco a segurança de civis, ao refugiarem-se em zonas residenciais, "mas tal não justifica os ataques premeditados dos etíopes contra bairros inteiros", denuncia a organização. O relatório responsabiliza também os rebeldes por execuções sumárias, incluindo vários casos em que as vítimas terão sido queimadas vivas, e pelo assassinato de dezenas de funcionários governamentais.
Ao contrário da versão oficial, a HRW afirma que o nível de violência não parou de aumentar desde que o Governo somali se instalou na capital, em Janeiro passado, e as batalhas registadas em Março e Abril terão provocado "entre 400 a 1300 mortos".
Silêncio vergonhoso por parte dos principais governos estrangeiros"
O relatório denuncia ainda que "a indiferença do Conselho de Segurança da ONU" em relação à situação humanitária na Somália apenas tem contribuído para "agravar a tragédia", antes de acrescentar: "Este é um conflito marcado por inúmeras violações do direito humanitário que tem encontrado um silêncio vergonhoso por parte dos principais governos estrangeiros e das instituições internacionais".
A denúncia da organização de defesa dos direitos humanos é conhecida no mesmo dia em que o Conselho de Segurança comhttp://10.38.1.194/admin/editaNoticiaHTM.asp?idNot=1302115&id=10eça a debater uma proposta de resolução com vista a passar para a ONU o controlo da missão de paz enviada para a União Africana para substituir o Exército etíope.

