Hugo Chávez disparou em todas as direcções mas acabou por apelar à união ibero-americana

09.11.2007 - 21:48 Por Sofia Branco, Santiago do Chile
Muito poucos saíram ilesos da meia hora de discurso de Hugo Chávez, ontem, na XVII Cimeira Ibero-Americana, em Santiago do Chile. O Presidente venezuelano disparou em todas as direcções, contra presentes e ausentes - chamou "fascista de todo o tamanho" ao ex-primeiro-ministro espanhol José María Aznar; apelidou o Presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, de "magnata petroleiro" e gozou com argentinos e uruguaios, actualmente em conflito por causa de uma fábrica de celulose.
E, como já seria de esperar, os Estados Unidos, país onde vigora "o fascismo dos fascismos", foram alvo de inúmeras críticas, nomeadamente por terem imposto à região "o projecto imperialista mais acabado e refinado da história" - o Acordo de Livre Comércio para as Américas.
Espanha foi a segunda preferência das bordoadas de Chávez e, não se sabe se por isso, o chefe do Governo de Madrid, José Luís Rodríguez Zapatero, furtou-se a um encontro bilateral com o líder venezuelano (no que foi secundado pela anfitriã da cimeira, a Presidente chilena, Michelle Bachelet).
A regra dos cinco minutos de palavra por chefe de Estado não foi cumprida por Chávez, mas ninguém teve coragem de o interromper, dando tempo ao líder "bolivariano" para discorrer as suas propostas alternativas à agenda oficial do encontro entre os 22 chefes de Estado e de Governo ibero-americanos.
O líder venezuelano rejeitou o termo coesão social, tema central da cimeira. "Como se pode tornar coeso o que está despedaçado?", perguntou, dizendo preferir "justiça social".
Criticando os países que "preferiram o neoliberalismo", propôs uma petroleira e uma televisão do Sul, à semelhança do projecto do banco que já colocou em marcha.
Antes, no discurso de abertura da cimeira, Michelle Bachelet deixou um apelo claro - não se pode ficar pelas palavras, são necessários "resultados, metas, prazos e estratégias", principalmente "a região mais desigual do planeta". Os líderes políticos,
reconheceu, não têm sido capazes de "dar despostas eficazes aos desafios sociais". É preciso, insistiu, mostrar que as cimeiras ibero-americanas são "instrumentos eficazes para melhorar a vida das pessoas".
Hugo Chávez foi o último chefe de Estado a usar da palavra antes do almoço e motivou o maior corrupio de jornalistas em frente ao grande ecrã do centro de imprensa do Espacio Riesco, quartel-general da cimeira. Começou por recordar o "grande Salvador
Allende, o Presidente-mártir" - Michelle Bachelet abanou a cabeça em sinal de aprovação. "Como estaria o Chile hoje se tivessem permitido a Allende desenvolver o seu projecto socialista profundamente democrático?", questionou, falando de improviso, consultando um caderno preto pequenino que segurava entre as mãos, que cediam à gesticulação regularmente.
Recordou também o seu amigo Fidel Castro (Cuba fez-se representar na cimeira pelo vice-presidente Carlos Lage), de quem contou ter um dia recebido "um bilhetito", no qual se lia: "Sinto que já não sou o único diabo destas cimeiras" ibero-americanas.
Lembrando que, nos últimos anos, foi deixando de estar tão sozinho e que a aceitação de "algumas" das suas propostas "revolucionárias" tem aumentado na região, Chávez terminou apelando à união "de verdade" entre todos - mostrando até alguma complacência com "distintos ritmos" e "diferentes sistemas, políticas e ideologias". Desde que, no final, todos acabem por "cruzar as grandes alamedas".

