Na sua terceira viagem a África em pouco mais de três anos desde que tomou posse, o Presidente Hu Jintao pretende reforçar a aposta chinesa no continente e ao mesmo tempo mostrar aos mais relutantes líderes regionais que esta é uma parceria com benefícios mútuos sem risco de nova "colonização" do continente, como alertou o seu homólogo sul-africano, Thabo Mbeki, em declarações muito críticas no final de 2006.
Após uma breve paragem, ontem, nos Emirados Árabes Unidos, a República dos Camarões será hoje a primeira etapa da maior digressão que Hu Jintao alguma vez realizou ao continente africano. O líder chinês esteve no Egipto, Argélia e Gabão em 2004, e em Marrocos, Nigéria e Quénia em 2006.
Agora, Sudão, Libéria, Zâmbia, Namíbia, África do Sul, Moçambique e Seychelles serão os outros destinos de uma viagem que pretende concretizar promessas feitas no Fórum de Cooperação Sino-Africano de Novembro: perdoar a dívida a 33 países, disponibilizar uma linha de crédito de cinco mil milhões de dólares e alargar a entrada facilitada na China a mais de 400 produtos africanos.
Após o "marco histórico" que representou a cimeira de Pequim, que levou à China chefes de Estado de quase todos os países africanos, a visita de Hu Jintao é "mais um importante passo" na aproximação a África.
Relações crescentes
Em Abril de 2006, na Nigéria, o Presidente, Olusegun Obasanjo, disse a Hu Jintao que este seria o "século da China liderar o mundo" e como tal África aspirava a estar do seu lado. Mesmo os africanos mais cépticos reconhecem que o investimento chinês tem permitido avançar mais rapidamente para a reconstrução de infra-estruturas que beneficiam a população como pontes, estradas ou hospitais, e manter a dinâmica do crescimento económico.
Pelo menos 700 empresas estatais chinesas estão instaladas em África- com a lógica predominante de fornecerem trabalhadores além do equipamento da China. Só em Angola, um dos países petrolíferos em que Pequim apostou, estarão já mais de 400 mil chineses.
Sudão, Nigéria, Zimbabwe, Gabão, Guiné-Equatorial, Chade e Argélia são os outros destinos dos investimentos no petróleo - recurso vital para uma economia chinesa em forte expansão. E embora este seja um sector onde as empresas ocidentais dominam pela tecnologia de ponta, a China ganha terreno pelas condições privilegiadas que oferece e pelas parcerias que estabelece com empresas petrolíferas nacionais. Pequim negoceia sem as regras de transparência que outros países passaram a aceitar face à pressão de organizações internacionais depois de verificados vários escândalos de corrupção.
"Discretamente, e com a atenção do mundo virada para outro lado, a China tornou-se num importante actor em África", lembrava recentemente o jornal The Independent de Londres.
Em três anos, Pequim passou a terceiro maior parceiro comercial de África, a seguir aos EUA e à França, e ultrapassando a Grã-Bretanha. Desde 2000, as trocas entre a China e África mais do que triplicaram: eram de 35 mil milhões em 2005.
Pressão sobre Cartum
Apesar da declarada política de "não-ingerência" nos assuntos que a ligam ao continente, a China ameaçou suspender as ajudas à Zâmbia em caso de vitória do candidato da oposição, Michael Sata, nas eleições presidenciais de 2006. Este tinha-se referido à "soberania" de Taiwan e criticado as práticas laborais da China na Zâmbia.
O regime de Pequim é acusado de, em nome dos negócios, proteger ditaduras como o Zimbabwe ou o Sudão, que de outra forma estariam isolados internacionalmente.
Na paragem de Hu Jintao no Sudão, no final desta semana, espera-se que o Presidente chinês aceda ao pedido do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, para usar a sua influência e persuadir o Presidente de Cartum, Omar al-Bashir, do que mais ninguém conseguiu: aceitar uma força de paz da ONU para controlar a violência das milícias contra a população na província sudanesa do Darfur.
Seria uma forma de Pequim demonstrar que também aposta na paz e na estabilidade do continente, defendem organizações de direitos humanos.


