HRW pede a Obama atenção particular pelo respeito dos direitos humanos

14.01.2009 - 15:01 Por Jorge Heitor
A Administração Obama deverá colocar os direitos humanos no âmago da sua política externa, interna e de segurança, se quiser remediar os “enormes estragos dos anos Bush”, é esta a mensagem da Human Rights Watch (HRW) no seu Relatório Mundial de 2009, distribuído hoje por essa organização independente criada em 1978 e que tem a sua sede em Nova Iorque.
A liderança dos Estados Unidos na promoção dos direitos humanos será vital, “porque actualmente a mais enérgica e organizada diplomacia do mundo é negativa no que diz respeito aos direitos humanos. É conduzida por nações que tentam evitar o escrutínio dos abusos cometidos por elas ou pelos seus aliados”, diz a HRW, que tem como director executivo Kenneth Roth, antigo procurador federal em Nova Iorque e Washington.
A crise dos direitos humanos na Faixa de Gaza, onde centenas de civis têm estado a morrer na luta entre Israel e o Hamas, “sublinha a necessidade de uma atenção internacional centrada nos abusos que acompanham os conflitos armados da actualidade”, afirma este relatório de 564 páginas, que sintetiza o que se passa em mais de 90 países, do Afeganistão à Colômbia.
No ensaio com que abre este trabalho, Roth declara que o respeito que um Governo tem pelos direitos humanos não se mede só pela forma como trata o seu próprio povo mas também pelo modo como encara esses mesmos direitos nas suas relações com outros países: “A solidariedade entre governos do Sul é particularmente desanimadora em casos como o da Índia e da África do Sul, que são democracias que respeitam os direitos dos seus próprios povos mas seguem uma política externa que sugere que outros não merecem direitos iguais. A solidariedade de bloco não deveria substituir-se à defesa dos valores mais fundamentais”.
Críticas a Pretória
O director da HRW lamenta “a resposta do Governo sul-africano à crise no Zimbabwe. Pretória recusou-se a falar contra a repressão” de Harare. E diz que o Presidente Thabo Mbeki parecia mais estar a apoiar “um líder repressivo do que as suas vítimas”.
Tendo uma curta memória da sua própria luta contra o "apartheid", prossegue este estudo, “o Governo sul-africano também virou as costas ao povo da Birmânia”, opondo-se a que o Conselho de Segurança das Nações Unidas faça qualquer coisa quanto a esse problema.
Também se diz que o novo Governo do Paquistão ainda não traduziu a sua própria luta contra a ditadura de Pervez Musharraf em apoio a esforços semelhantes feitos noutros lados. E destaca-se, por outro lado, que na América Latina os governos da Argentina, do Chile, da Costa Rica e do Uruguai têm apoiado iniciativas a favor dos direitos humanos, desde o Tribunal Penal Internacional até ao Conselho dos Direitos Humanos.
Por oposição ao que faz a África do Sul, nota-se que o Botswana, a Libéria, a Nigéria, a Serra Leoa e a Zâmbia têm tentado levar a União Africana a condenar o Presidente Robert Mugabe.
Da Rússia se afirma que muitas vezes actua nas instituições das Nações Unidas no sentido de proteger os seus aliados e de evitar o escrutínio das suas “práticas crescentemente repressivas”, tendo resistido a tentativas de se aumentar a pressão sobre o Governo sudanês.
Quanto à Etiópia, observa-se que “tem um dos piores registos de direitos humanos na África”; e que as suas tropas recorreram à política de terra queimada para dominar rebeliões, tendo inclusive destruído aldeias na região de Ogaden, enquanto na Somália torturaram e executaram alegados partidários de grupos rebeldes.
No que diz respeito ao Médio Oriente, todos os governos ocidentais teriam falhado na promoção dos direitos humanos: “Como a Arábia Saudita produz petróleo e é um aliado contra o terrorismo, nenhum Governo ocidental desafia a sua falta de liberdades políticas e de sociedade civil; ou as suas graves restricções aos direitos das mulheres e dos migrantes”. Da mesma forma que o Ocidente “procurou melhorar as suas relações com a Líbia, com poucas críticas ao seu lamentável registo de direitos humanos”.


