Hospital improvisado, morgue, centro de comunicações, pólo de coordenação de ajudas à situação de crise e acampamento para trabalhadores das agências humanitárias e jornalistas e seja lá quem mais precisar de abrigo: o hotel Villa Creole, na capital haitiana, é hoje quase tudo e já muito pouco de hotel.
"Um hotel tem que ser como um pai, mãe, tudo ao mesmo tempo", afirma o director geral, Frantz Rimpel, que começou a trabalhar no Creole a lavar pratos há 42 anos.
Rimpel, como todos os outros funcionários deste hotel, sobreviveu ao terramoto de terça-feira. Nenhum ficou sequer ferido. Mas a maior parte perdeu familiares e amigos. Já passaram por muitas experiências difíceis neste pobre país das Caraíbas - desde o derrube violento de governos à devastação das tempestades tropicais -, mas dizem nunca ter visto nada como agora.
"Nada se compara ao que este terramoto fez. Não estávamos minimamente preparados", lamentou ainda Frantz Rimpel à agência britânica Reuters.
Como muitos outros edifícios do distrito moderno de Pétionville, na zona alta da capital, o Villa Creole - elegante construção ao lado de uma colina, rodeado de vegetação luxuriante - sofreu muitos danos com o terramoto.
Hoje a estrutura central do edifício pode ver-se no chão, totalmente esmagada. Pinturas e esculturas lindíssimas, valiosas peças de arte haitianas, permanecem espalhadas pelo chão, cobertas de pó, debaixo de blocos de cimento.
Logo após o abalo sísmico, o hotel abriu portas, gratuitamente, a funcionários das agências de ajuda humanitária que começaram a chegar, aos correspondentes dos jornais estrangeiros e todos quantos não tivessem para onde ir.
"Os meus avós fundaram este hotel", disse Melissa Padberg, co-proprietária do Creole. "Perdemos obras de arte muito valiosas. Mas agora não temos de nos preocupar com dinheiro. Estamos a tentar manter as portas abertas e fornecer serviços básicos aos nossos clientes, a tentar ajudar", disse.
Para ter energia eléctrica, usa-se um gerador. Surgiu um serviço de acesso à internet de algures, ninguém sabe ainda muito bem de onde. Na zona da piscina, antes um oásis de paz e descanso, ecoa o matraquear constante de teclados, os cliques dos telefones satélite e as conversas soltas de jornalistas oriundos de todo o mundo, que estão a usar o Creole como base avançada de operações para relatar o que se está a passar no Haiti depois do destruidor terramoto.
As organizações não governamentais Hope for Haiti e International Medical Corps instalaram-se ali, com o que tinham, para ajudar. E quando um dos grupos de assistência humanitária começou a distribuir medicamentos e ligaduras aos feridos, a notícia não demorou a espalhar-se. Agora centenas de haitianos acorrem à entrada do hotel, dando corpo a um hospital improvisado. Alguns dos feridos morreram, dada a extensão dos ferimentos e a falta de equipamento médico apropriado - os seus corpos foram alinhados na estrada mais abaixo.


