Quando, hoje, às 10h30 da manhã, no majestoso Museu de História Alemã na Unter den Linden, 26 líderes europeus aplaudirem Angela Merkel no acto de assinar a Declaração de Berlim, a coreografia a que o mundo assistirá será perfeita.
Primeiro pela cidade. Quando, numa tarde chuvosa do dia 25 de Março de 1957, os mais altos representes de seis países europeus ocidentais assinaram no Palácio do Capitólio, em Roma, o tratado fundador da Comunidade Económica Europeia, ninguém ousaria sequer pensar que ele viria um dia a ser celebrado em Berlim. Cidade dividida da Alemanha dividida, linha da frente da guerra fria há 50 anos. Hoje, cidade exultante, capital da Alemanha unificada no centro de uma Europa reunificada.
Depois, pela chanceler. Angela Merkel, que nasceu e cresceu do lado errado da História da Europa do pós-guerra e do lado errado do Muro de Berlim, é hoje a figura central da política europeia, a sua estrela ascendente, representando, como antes dela Helmut Kohl, Willy Brandt e Adenauer, uma Alemanha europeia.
Finalmente, pelo número de participantes - 27 chefes de Estado e de governo, do Ocidente e do Leste, do Norte e do Sul do continente, representando 500 milhões de cidadãos europeus, num indiscutível testemunho da força do projecto europeu.
A Europa que hoje se celebra em Berlim é outra e é a mesma.
É outra, porque se alargou a todo o continente, fez o mercado interno e o euro, porque há soldados europeus no Líbano e nos Balcãs, no Congo ou no Afeganistão. É a mesma, porque nada disto teria sido realidade, se os pais fundadores não tivesem decidido que a unidade europeia se contruiria assente nos valores da liberdade, da democracia, da tolerância e da paz.
A Declaração de Berlim, que Angela Merkel, na sua qualidade de presidente em exercício do Conselho Europeu, Durão Barroso, presidente da Comissão, e Hans-Gert Poettering, presidente do Parlamento Europeu, assinam esta manhã na cerimónia política mais simbólica das comemorações, pode não ter a redacção perfeita.
Ontem foi o dia de escalpelizar a sua forma e o seu conteúdo e para dizer até que ponto ela reflecte as divisões europeias do presente. Hoje, ela servirá para representar, para além de todas as divisões e de todas as incertezas, um compromisso renovado com esses mesmos valores. Hoje, em Berlim, todos serão berlinenses.
Do ponto de vista político, a coreografia de Merkel também não foi inocente. O seu objectivo é ajudar a criar um clima de compromisso e de boa vontade, sem o qual não conseguirá o grande objectivo que se propôs para a sua presidência da UE: resolver a questão constitucional. E se a palavra Constituição foi banida das comemorações oficiais e da Declaração de Barlim, em nome da unidade europeia, ela regressará ainda hoje à agenda dos líderes europeus, no almoço de trabalho em que vão participar antes de deixar Berlim.
Ontem, num texto publicado no site oficial da presidência, a chanceler interrogava-se: "Por que razão deveríamos renunciar a uma maior transparência, a um controlo democrático mais forte e a uma maior capacidade de acção?" E antecipa a resposta: "A presidência alemã está a trabalhar para elaborar um roteiro para o processo constitucional, cujo horizonte temporar são as eleições europeias de 2009."
Berlim é uma festa
Ontem, os líderes europeus e mais 2000 convidados abriram as cerimónias oficiais escutando uma das melhores orquestras do mundo interpretar uma das simfonias mais belas do mundo. Na primeira fila, Angela Merkel com o Presidente Chirac, na sua última cimeira europeia. No palco, a Pilarmónia de Berlim, liderada pelo maestro britânico sir Simon Rattle, numa fabulosa interpretação da 5ª Sinfonia de Beethoven.
Hoje, depois da cerimónia do Museu de História Alemã, a chanceler e alguns dos seus pares - Tony Blair e Durão Barroso já marcaram comparência - percorrerão a Unter den Linde, a grande avenida que atravessa Berlim, até à Porta de Brandeburgo.



